O Brasil, com seus 500 aninhos, é um país adolescente perto dos milenares países europeus e asiáticos. Apesar disso, sendo a oitava economia mundial, tem legítima aspiração de querer integrar, logo, logo, o primeiro grupo dos países desenvolvidos.
Acontece que desenvolvimento não é um processo meramente econômico, medido nos resultados da matemática estatística. É muito mais do que isso. Desenvolvimento é mentalidade. E aí, perdoem-me os compatriotas, somos, na média, adolescentes, imaturos mesmo. Basta notar o termômetro institucional brasileiro. Nossas instituições - políticas, econômicas, sociais, culturais - grande parte delas está abaixo da crítica. Onde está a certeza da estabilidade, da funcionabilidade eficaz, da objetividade, do cumprimento das finalidades, enfim, a confiança nas instituições?
A relação entre o cidadão e as instituições é mais ou menos a relação entre o consumidor e o fornecedor de energia elétrica. Quando o sujeito vai apertar o interruptor de luz, para acender uma lâmpada, ele geralmente não pensa na hipótese de não alcançar o resultado esperado. Há uma certeza, implícita em seu gesto, no sentido de que do aperto no interruptor se fará luz. É corriqueiro, é rápido, é ação intermediária. Essa é a expectativa do usuário do sistema de energia elétrica. Porém, de repente o inesperado acontece e vem um apagão. E quando esse acontecimento ameaça se tornar conjuntura, a relação entre consumidor e fornecedor fica estremecida. Ocorre uma quebra de confiança, gerando enfraquecimento na expectativa do resultado e descrédito na instituição produtora de energia. Não há propaganda que dê jeito nisso, pois o fenômeno se renova, concretamente, a cada clique.
Mudando-se o que deve ser mudado, esse fato é análogo ao descrédito arremessado contra nossas instituições democráticas, quando elas falham - o que é seguido igualmente por um arrefecimento do senso de cidadania. Sempre que uma dessas instituições fizer blecaute, negando a luz de suas funções, o cidadão-usuário-mantenedor não ficará apenas com cara-de-tacho, ele também reduzirá sua confiança, sentirá uma diminuição no seu espaço de cidadania, sofrerá de desproteção e se inquietará quanto ao seu futuro.
Quando a instituição judiciária, por exemplo, tarda, ela falha com o compromisso cívico de prestar pronta jurisdição ao requerente. Na demora, esgarça-se a relação de certeza-confiança entre o cidadão e a Justiça, indispensável à manutenção das liberdades individuais e públicas.
Quando a instituição legislativa, noutro exemplo, insiste em se fazer de desentendida às urgências da sociedade, ela fortalece a impressão de que ‘‘as coisas não vão mudar’’. Daí o povo, em nome de quem esse Legislativo foi criado, se sentirá no papel de bobo, ignorado - e não verá no seu título de eleitor mais do que um mísero papelete pintado de verde.
Quando a instituição executiva do poder social não se autopolicia e permite a formação de esquemas paralelos de gerência de poder, o cidadão se sente ultrajado e fica dividido entre o desprezo e o interesse de se tornar cúmplice do maldito processo.
Quando a instituição universitária ‘‘se descuida’’ e incinera precocemente documentos públicos que provariam a aptidão intelectual dos filhos da elite, aprovados em exame vestibular, a escola se sujeita a pechas do populacho, mediocrizando a nobre missão do ensino-aprendizagem.
De todo modo, quando essas instituições ditas democráticas não se dão ao respeito e se entregam à prática do nepotismo, da malversação, da aristocratização, publicados no Diário Oficial, ou não, acabou-se o cimento da estrutura. Como o mármore e os cristais se sustentarão só com areia?
Como se trata de um processo, o fenômeno é multilateral, as responsabilidades da decadência são compartilhadas por todos. Sejam os agentes que animam o funcionamento das instituições - a quem denominamos ‘‘autoridades públicas’’ - sejam os supostos destinatários da tal máquina administrativa - os cidadãos - todos somos responsáveis pela fragilização da estrutura que nos sustenta a democracia.
Antigamente, os que se locupletavam dessas quebras de confiança contavam com a conivência dos órgãos fiscalizadores e com a ignorância dos empulhados. Hoje, isso não é mais possível. Os cidadãos já aprenderam a interpretar o mal-estar dos blecautes institucionais, e perceberam que a essência da crise é ética.
Está faltando ética, os castelos públicos estão sem cimento.

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