Instagram amplia controle parental, mas saúde mental exige mais do que tecnologia
A comunicação com pais e responsáveis pode ser uma ferramenta positiva, desde que não seja baseada apenas em controle
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de julho de 2026
A comunicação com pais e responsáveis pode ser uma ferramenta positiva, desde que não seja baseada apenas em controle
Karen Scavacini 
A decisão da Meta de alertar pais e responsáveis quando adolescentes conversarem com a Meta AI sobre temas sensíveis, como suicídio e autolesão, mostra que as plataformas digitais começaram a tomar uma atitude frente a uma realidade que já faz parte do cotidiano de milhões de jovens e que está dentro das redes, assim como fora delas. A saúde mental deixou de ser uma discussão separada do ambiente online. É justamente nas redes e nas ferramentas digitais que muitos adolescentes expressam dúvidas, medos e sofrimentos que nem sempre conseguem compartilhar em outros espaços.
A inteligência artificial pode representar um avanço importante ao ampliar o acesso a informações, orientações e caminhos de apoio. Ao mesmo tempo, ela também expõe um limite que precisa ser discutido. Identificar sinais de sofrimento não é o mesmo que compreender uma pessoa. Um alerta pode chamar atenção para uma situação de risco, mas o cuidado começa quando existe alguém ou algum serviço acessível e preparado para ouvir, acolher e acompanhar.
A comunicação com pais e responsáveis pode ser uma ferramenta positiva, desde que não seja baseada apenas em controle. Quando adolescentes percebem que falar sobre sentimentos difíceis pode gerar punição, julgamento ou perda de privacidade, a tendência pode ser o silêncio. Por isso, o desafio não está apenas em descobrir quando algo está errado, mas em construir relações em que pedir ajuda seja possível e saber o que fazer com a informação (pais precisam saber o que podem fazer e como conversar sobre isso).
A tecnologia pode ter um papel relevante nesse processo, especialmente ao criar novos caminhos de identificação e orientação. Mas ela não substitui aquilo que é essencial no cuidado em saúde mental, como vínculo, contexto e escuta. Uma ferramenta pode reconhecer padrões de comportamento e oferecer direcionamentos iniciais, mas não conhece a história completa de uma pessoa nem consegue ocupar o lugar de uma relação humana de confiança ou substituir um profissional de saúde.
Por isso, discutir segurança digital para adolescentes exige ir além dos mecanismos de monitoramento. Famílias, escolas e sociedade precisam fortalecer a educação emocional, criando espaços em que jovens aprendam a reconhecer seus sentimentos e encontrem apoio antes que uma situação de sofrimento se agrave. Plataformas precisam deixar seus espaços seguros e não passar para os pais toda a responsabilidade de cuidado.
As redes sociais e a inteligência artificial já fazem parte da vida dos adolescentes. O desafio não é afastá-los completamente desses ambientes, dependendo da idade, mas construir uma relação mais consciente com a tecnologia, em que ela ajude a aproximar pessoas e ampliar o cuidado sem substituir a presença humana que continua sendo indispensável.
Karen Scavacini é psicóloga, mestre em saúde pública pelo Karolinska Institutet (Suécia), doutora em psicologia pela USP e fundadora do Instituto Vita Alere


