Instabilidade cambial e reflexos na inflação
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terça-feira, 06 de agosto de 2002
Cid Cordeiro 
Novamente passamos por uma crise cambial. Foi assim em 1995, 97, 99. No período de câmbio fixo, a saída idealizada pela equipe econômica foi o aumento da taxa de juros, deixando como herança um pesado passivo interno e externo.
Na presente crise e vivendo um regime de câmbio flutuante, o impacto recai sobre a desvalorização da moeda (o real). Os reflexos dessa desvalorização se dão sobre os passivos denominados em moeda estrangeira e sobre os preços.
O aumento da inflação é a grande preocupação da população frente a essa crise cambial. Estamos lendo e ouvindo diariamente os reflexos dessa alta do dólar nos preços, exigindo cautela dos formadores de preços e atenção do governo. Muitos aumentos desejados não se justificam. É preciso a definição em que patamar o câmbio vai se estabilizar para daí discutir/negociar repasses da variação cambial aos preços internos.
Temos três grupos de pressão sobre os preços: aqueles que sofrem diretamente os reflexos das mudanças de cotações (petróleo e derivados, commodities com preços definidos no mercado internacional e produtos importados); os preços que sofrem impacto indireto (tarifa de ônibus, pão, massas, etc) e os demais preços da economia, segundo modelo do Banco Central. O repasse da variação cambial neste último grupo varia de 3 a 6 meses.
Muito da histeria que o mercado viveu nos últimos dias foi pura especulação. É preciso deixar a poeira baixar, observar em que patamar o câmbio efetivamente vai ficar, para avaliarmos os reflexos nos passivos e nos preços.
Como fomos parar nessa situação ?
Os erros na condução da política cambial entre 1995-98, ocasionando pressão sobre os juros e o crescimento do PIB, elevando a dívida interna e externa e o déficit no balanço de pagamento, criaram as condições para tornar o País frágil frente aos ataques especulativos e aos humores do mercado financeiro internacional. Mesmo a capitulação da política irresponsável de sustentação de um câmbio sobrevalorizado não resolveu o problema brasileiro, porque faltou ação do governo para estimular as exportações e, consequentemente, melhorar as contas externas, reduzindo a fragilidade do País.
Estamos pagando caro pelos oito anos de erros na condução da política cambial e monetária, colocando em risco o processo de estabilização de preços alcançado em 1994.
CID CORDEIRO é economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Paraná (Corecon-PR)


