Que atire a primeira pedra quem nunca cabulou noites de sono findando um trabalho, agilizando o expediente, festejando ou então diante da tela do computador, em programas de mensagens instantâneas. Seria um corpo treinado para ''dormir menos'' sinônimo de mais rendimento? Ledo engano. Em entrevista à FOLHA, a neurologista Mônica Marcos de Souza fala sobre os mitos e verdades que circundam o sono. E faz o alerta: é importante saber diferenciar o que é normal do que é patológico.

Como podemos ''equacionar'' o sono?
O sono diferencia desde um recém-nascido até uma pessoa de idade. Um recém-nascido, por exemplo, passa 16 horas dormindo. A criança pré-escolar, dos 4 aos 6 anos, tem dois ciclos de sono: noturno, de oito a dez horas, e o vespertino, de três a quatro horas. Na adolescência, essa necessidade de dois ciclos se finda. O período da noite é suficiente. O adulto/jovem dorme de seis a oito horas. E o idoso, por sua vez, tem a Síndrome de Avanço de Fases, ou seja, vai dormir mais cedo e acorda mais cedo.

Diante das tentações e parafernálias do mundo globalizado, centralizando a figura do jovem, como é a relação do adolescente com o sono, em linhas gerais?
O adolescente passa por alterações hormonais que trazem a Síndrome do Atraso de Fases, ou seja, uma propensão a dormir mais tarde, arrastando o dormir para 10 horas, meio-dia, por exemplo. Isso é muito debatido em escolas porque esse aluno não consegue ficar acordado em sala de aula. Há a sonolência e muda-se o ciclo de sono.

O que a internet faz com o sono? Afinal, a ferramenta é uma vilã?
O uso da internet gera descarga de adrenalina e, como o ritmo é intenso, você bloqueia a produção de melatonina. Resultado: o sono não vem.

O ''não dormir'' as horas necessárias traz prejuízos ao adolescente?
Sem dúvidas. Há a dificuldade de concentração na escola, o rendimento cai e a irritabilidade aumenta. Existe um prejuízo também no crescimento, inibindo a liberação do hormônio GH. A imunidade também cai. É no sono profundo que há a liberação de substâncias que estão envolvidas com nossa imunidade celular.

A ''dormidinha'' à tarde, após o almoço, não resolve o problema?
De forma alguma. Dormir à tarde não repõe noites de sono. Somente na noite pós-privação do sono é que existe o rebote desse sono profundo, daí as pessoas dormirem mais.

Trocar o dia pela noite, nem pensar?
Conheço uma pessoa, fumante, que reclamou comigo que só conseguia dormir das 5 da manhã ao meio-dia. Ela está com a higiene do sono errada. O ideal é se fazer ritmos. E, contra esses ritmos, temos dois fatores agravantes, que ressalto: a nicotina, que seguramente provoca insônia, e o álcool. O ficar ''cambaleado'' tem efeito no início. Depois, o álcool promove insônia, além de o alcoolismo ser uma causa de depressão secundária.

E para quem recorre aos ''tarja preta''?
Fiz uma pesquisa, para meu mestrado, comparando dois grupos, um que tem a doença de Parkinson e outro que não. Foi difícil encontrar pessoas com sono normal. E o pior: grande parte da população hoje está usando antidepressivos. No início, os ''tarja preta'' promovem o relaxamento e o padrão de sono. Com o passar do tempo, o efeito é inverso, ocorrendo a insônia.

Alguma recomendação?
A atividade física. Com a hipertrofia, há uma facilitação do sono profundo. Nosso cérebro funciona por rotina.

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