As abelhas estão desanimadas. E, portanto, os criadores de abelhas também. Eles foram até Bruxelas, tendo à frente os apicultores espanhóis, e gritaram, sob todas as janelas dos ministros europeus, porque a abelha está morrendo. Este parece ser um acontecimento minúsculo, se comparado aos talebans ou aos horrores da Palestina. Mas, apesar disso, a morte das abelhas tem algo que faz tremer. Nos Estados Unidos, milhões de colméias desapareceram. Na França, 500 mil apiários fecharam. E sabemos o motivo desta hecatombe: inseticidas, sobretudo o ‘‘gaúcho’’ fabricado pela Bayer, estão enlouquecendo as abelhas. Elas perdem o senso de orientação, não compreendem mais os sinais feitos pelas outras abelhas. Quando elas terminam de sugar o mel de suas flores, não reencontram mais o caminho da colmeia. E agonizam.
Esta é uma data não apenas na história da humanidade, mas até mesmo na história da Terra. As abelhas desembarcaram em nosso planeta muito antes dos homens. Desde que elas aqui se instalaram, puseram-se a trabalhar. Quando, por sua vez, chega o homem, 80 milhões de anos mais tarde, elas os enchem de mel, elas lhe oferecem sua cera.
Além disso, as abelhas mantêm as florestas e as flores. É a grande ‘‘fecundadora’’, bem antes dos ventos e dos colibris. Quando ela entra numa flor para dela sugar o néctar, deixa ali o pólen, que é a semente masculina e depois disso vai amar outra flor, que ela fecunda. É assim que a vida se perpetua nas florestas, que a Terra é variada, cheia de plantas, de frutos, de árvores, e de coisas boas para comer. A abelha é não apenas uma das cores mais cambiantes da tapeçaria do mundo, mas é ainda a tecelã, a costureira e a bordadeira dessa tapeçaria. ‘‘Se a abelha desaparecesse’’, dizia Albert Einstein, com certo exagero, ‘‘a humanidade não teria mais do que quatro anos para viver’’.
Se tivéssemos o espírito ligeiramente filosófico, acrescentaríamos esta reflexão: a abelha é um dos milagres da criação. Como explicar na realidade os fabulosos esponsais entre a flor e a abelha, duas ordens incompatíveis, proibidas entre si?
Nenhum dos outros animais tem o direito de fazer amor com indivíduos que não sejam da mesma espécie: imaginemos as dificuldades que nós, os humanos, experimentaríamos se quiséssemos fazer amor com uma pantera, uma lebre, ou mesmo uma libélula. Podemos lamentar, mas é assim: esta é a lei de Deus.
Ora, a abelha, não liga para esta lei: faz amor com as plantas porque isso lhe agrada! É uma insubmissa. Ama as flores e logo que vê uma papoula ou uma rainha-margarida, ela a ama intensamente. E lhe dá filhos, que são outras flores.
Ela transgride alegremente toda a moral e todos se beneficiam desse amor proibido: a abelha se alegra, faz o mel e faz flores. A flor se regala. Sente prazer, faz frutos, deixa o planeta sarapintado de cores. ‘‘O dueto do amor’’, diz o alemão Ernst Junger, ‘‘entre dois seres, tão diferenciados entre si nas suas formas e em seu grau de desenvolvimento, deve ter-se concretizado um dia, como por um passe de mágica, por uma varinha de condão, por inumeráveis núpcias. As flores tomam a forma de órgãos sexuais singulares adaptados a criaturas totalmente estranhas a elas’’.
Enigma inefável: dois seres inteiramente afastados entre si, a abelha e a flor, conseguiram atravessar a transparente e irremediável parede que proíbe a seres de espécies diferentes amarem-se e perpetuarem a vida. Hoje, os pesticidas inventados pelo delírio tecnológico dos homens, coloca em perigo esta maravilha e, consequentemente, o milagre da polinização.

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