Insegurança inaceitável (Editorial)
Os dias de Carnaval não foram apenas de alegria e descontração no Brasil. Ao lado das belas imagens, que a TV se encarregou de exibir para todo o País, dos desfiles de escolas de samba no Rio e em São Paulo, da folia na Bahia e em Pernambuco, da alegria toda que marcou naturalmente a festa, houve também o aspecto trágico de quase meio milhar de assassinatos, principalmente nas maiores capitais da terra da folia. Antes, durante e depois da festa (até mesmo durante as comemorações da vitória de uma das escolas de samba, em São Paulo) o registro policial foi intenso e dramático. O contraponto das pessoas que pulavam, alegres e felizes, que desfilavam eufóricas nas avenidas, foi a imagem dos parentes daqueles que morreram, vítimas de todo tipo de violência criminosa. Os assassinatos acabaram se unindo às mortes nas estradas para compor um quadro terrível de uma realidade que teima em acompanhar a vida da população.
Ocorre que esta situação de insegurança é inaceitável sob qualquer padrão. Os brasileiros já sofrem o suficiente com as agruras da vida, com as incertezas geradas pelas autoridades econômicas e pelos especuladores. Não deveriam ter, ainda, de enfrentar o crime, a violência incontida que vai se tornando parte quase integrante do dia-a-dia da população. Pode-se dizer que boa parte desta tragédia decorre mesmo é das circunstâncias econômicas: o desemprego, a falta de condições mínimas de vida, a desesperança que volta a rondar boa parte do povo, tais são de fato ingredientes comuns a provocar atos de violência. Acontece, porém, que é inconcebível uma aceitação passiva disto, não há como considerar natural que o povo, sacrificado sob tantos aspectos, também se veja impotente em face da ação dos criminosos que o ameaçam em toda parte.
Existe uma responsabilidade real neste caso: cabe aos governos garantir segurança à população. Este não é um item dispensável, não é sequer discutível. Não existe justificativa para este tipo de situação, a não ser, naturalmente, a falta de responsabilidade dos que têm como dever dar aos cidadãos condições para que possam enfrentar a vida sem o medo permanente da violência que está se tornando uma constante por toda parte. Já passou o tempo das promessas (até porque as campanhas eleitorais se realizaram o ano passado) e o mínimo que os brasileiros em todos os Estados podem exigir é que haja ação real, objetiva e firme por parte de seus governadores, recentemente eleitos ou reeleitos. Podem os governadores até decidir que não vão pagar suas dívidas, como fez recentemente Itamar Franco, ou suspender obras. Mas não podem se omitir na questão da segurança.
O que aconteceu neste Carnaval, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, é inaceitável, até porque aqueles Estados atraem visitantes de todo o País e do exterior. E tanto os cidadãos paulistas e cariocas como os turistas têm o direito de fazer a festa sem medo e sem desgraças. Este dever de garantir a integridade dos cidadãos é um dos mais sérios e quando não é cumprido, a cobrança tem de ser direta e imediata.
Faltam empregos, os hospitais continuam a atender mal, não há vagas para todas as crianças nas escolas, são enormes os problemas que a população brasileira enfrenta. Unir tudo isto a uma situação de insegurança é demais. Os governos estaduais têm a obrigação de deixar de lado discursos vazios e promessas ocas e partir para uma ação simples: melhorar a polícia, aparelhar os organismos de segurança, pagar (e treinar) adequadamente os que fazem parte do órgão da Segurança.





