INSEGURANÇA ALIMENTAR - Fome limita inserção na sociedade
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Carolina Avansini e Mariana Guerin<BR> Reportagem Local 
''Quem tem fome tem pressa''. A frase, celebrizada pelo sociólogo Herbert José de Sousa, o Betinho (1935-1997), descreve a situação de aproximadamente 40 mil famílias de Londrina que, situadas abaixo da linha de pobreza, enfrentam o desafio de não saber se terão o que comer a cada dia.
A consequência da falta de segurança alimentar é o comprometimento das perspectivas de vida. Sem obter a quantidade mínima de calorias necessárias para sobreviver, as pessoas concentram energias na busca por comida e ficam à margem da qualificação para conseguir emprego e inserção na sociedade.
''É muito cruel pensarmos que, com tanta comida estocada, há gente que vive em situação de penúria'', afirma o professor Ronaldo Baltar, do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Nesta entrevista, ele analisa os impactos da fome no dia a dia e no futuro de quem não tem o que comer e as possíveis soluções para a garantia da segurança alimentar.
Quantas pessoas passam fome em Londrina?
Dados do Ministério do Desenvolvimento Social apontam 40 mil famílias na linha de pobreza, que vivem com menos de um salário mínimo nacional. Desse total, há 19 mil famílias cadastradas em programas de distribuição de ajuda do governo federal, mas apenas 13 mil são atendidas. É uma cobertura grande, mas, mesmo assim, há uma defasagem.
Qual o perfil destas famílias?
São famílias em condições de risco na área de segurança alimentar por não terem renda e passarem fome. Esse grupo totaliza de 100 mil a 120 mil pessoas que não conseguem absorver o mínimo de calorias necessárias por dia para um ser humano sobreviver. Elas enfrentam risco de subnutrição.
A fome, então, não é a falta pontual de comida, mas a falta de alimentos necessários para suprir as necessidades diárias?
Sim, de uma forma contínua. Quem passa fome às vezes tem uma doação e come, no outro dia não tem... Vive numa situação de risco porque na vida dessa pessoa não há condições de se alimentar regularmente, por falta de recursos para comprar ou por falta de acesso aos programas do governo.
Quais as consequências da fome?
Tem relação com a falta de perspectivas, principalmente para as crianças. Quando as pessoas passam por um ciclo de pobreza durante um tempo grande, fica difícil, depois, se inserir no mercado de trabalho, porque não houve condições de se atualizar, buscar formação. Fica difícil até se colocar em funções que exijam pouca qualificação, como construção civil ou trabalhos domésticos. E o filho dessa pessoa também não vai ter chances e assim por diante... Geralmente, quem tem acesso a esses trabalhos são pessoas que estão se alimentando. Para incluir, é preciso ter um programa que ofereça escola, qualificação, enfim, alguma coisa que quebre esse ciclo. A falta de oportunidade não é falta de trabalho, apesar de haver desemprego no País, mas de inclusão, de conhecimento e de uma série de habilidades para a pessoa poder participar, com igualdade, do mercado de trabalho.
Quando os programas de distribuição de renda chegam às famílias, eles são suficientes?
Têm sido suficientes para tirar da situação de risco e colocar em condições mínimas de vida social. As pessoas passam a ter dinheiro não só para alimentos, mas para roupas e consumo básico. É o mesmo papel da merenda e da assistência médica que a escola oferece. Quem está fora do sistema não vai conseguir entrar sozinho. Alguma coisa tem que romper esse ciclo.
A solidariedade entre as pessoas em situação de miséria é positiva ou tem um lado negativo?
Quanto mais necessidade, mais solidárias as pessoas são. E quanto mais abundância você tem, menos solidário você é. Infelizmente, essa é a regra geral. A solidariedade é fundamental, pois é isso que mantém, em boa parte, a expectativa, a esperança. Se não fosse isso, a situação de penúria, de sofrimento, seria muito maior. Nem sempre a pessoa que recebe caridade vai se acostumar. Isso até acontece em programas oficiais, mas em uma parcela pequena da população, porque as oportunidades de emprego oferecem salário menor. Não é falta de vontade de fazer outra coisa, é um cálculo racional. Em comunidades onde as pessoas têm uma atitude mais coletiva, há reforço da autoestima e incentivo à busca de uma solução coletiva. Da autoajuda acaba saindo a ideia da cooperativa que gera renda.
Qual o impacto, no dia a dia, de não ter o que comer?
É uma situação terrível, de desespero. A pessoa passa a viver em situação de risco quando não tem a noção do que vai acontecer no final do dia se não tiver um prato de comida. Cria-se uma instabilidade grande, uma incapacidade de pensar outras alternativas que não sejam buscar o alimento. Ninguém vai estudar ou se qualificar nessa situação. A solução para a fome passa a ser prioridade. A situação combinada de falta de abrigo, alimento e roupas, para quem tem uma família, é cruel.
De que forma a fome impacta em outros setores, como saúde e educação?
O impacto é direto. A fome crônica causa dificuldades de aprendizagem porque afeta a capacidade de concentração e de compreensão. Com fome, ninguém estuda, ninguém aprende. E surgem deficiências físicas que, a longo prazo, causam incapacidade para o trabalho.


