Insatisfação marca eleição na Argentina e Paraguai
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sábado, 05 de abril de 2003
Alexandre Palmar<br> Equipe da Folha 
Foz do Iguaçu - Dentro de três semanas, Argentina e Paraguai realizam eleições que podem indicar o caminho para contornar as sucessivas crises enfrentadas nos últimos anos. Marcadas para 27 de abril, elas estão cercadas de peculiaridades, como o elevado grau de insatisfação popular com os governos. Porém, despertam interesses distintos nos eleitores.
As particularidades iniciam na data de votação e passam pelo fato dos eleitos assumirem cadeiras cujos atuais ocupantes não foram escolhidos pelo voto para o cargo. Luis González Macchi e Eduardo Duhalde foram eleitos senadores, mas assumiram, respectivamente, os governos paraguaio e argentino após graves convulsões internas. Eles não conseguiram contorná-las.
A definição dos novos presidentes também é vista com ansiedade pelos parceiros do Mercado Comum do Sul (Mercosul), Brasil e Argentina, por outras nações da América Latina e até por países do hemisfério norte. Estes, aparentemente, mais preocupados com o pagamento da dívida e dos juros dos devedores com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Embora compartilhem problemas, eleitores de cidades-pólos de Alto Paraná e Missiones, estados paraguaio e argentino na fronteira com Foz do Iguaçu, têm expectativas e interesses bem diferentes sobre as eleições. A maioria dos paraguaios está seguindo o dia-a-dia das campanhas eleitorais, enquanto os argentinos praticamente ignoram a existência da disputa.
O descaso é visto em Puerto Iguazú, vizinha de Foz, e em Posadas, capital da província de Missiones, distante 297 km da fronteira. A amostra foi estendida à capital com objetivo de comparar duas cidades de portes semelhantes (Posadas tem 280 mil habitantes e Ciudad del Este, 282 mil). Iguazú tem 31 mil, o que tende a tornar seu clima político menos intenso.
As ruas e avenidas de Posadas pouco reproduzem as plataformas dos 20 candidatos à Casa Rosada para seus eleitores. Diferente de pleitos anteriores, agora é raro encontrar propaganda eleitoral nos espaços públicos, afirmam os moradores. As rodas de conversa evitam falar dos candidatos. Essa realidade é semelhante na pacata Puerto Iguazú.
Em Posadas, é possível ver um tímido sinal das eleições em faixas estendidas nas praças San Martín e 9 de Julho. Muros e postes estão quase ''ilesos''. O fenômeno preocupa autoridades locais, que organizaram um movimento para despertar o interesse do povo. A tarefa é difícil, pois a apatia tem inúmeras razões (ver box). A expectativa é que a campanha ganhe corpo na reta final.
Com status de ser o segundo maior município do Paraguai, Ciudad del Este registra uma realidade bem distinta. Lá as propagandas eleitorais invadiram o centro comercial, os postes, muros, árvores, sacadas de apartamentos e têm espaço garantido na frota de táxi e vans. O tema é assunto frequente nos bate-papos, seja nas ruas ou nas lojas.
Vale destacar que os paraguaios também têm considerável aversão às figuras tarimbadas. A repulsa, entretanto, não é generalizada e parece estar distante de colocar os nove postulantes ao Palácio de López num mesmo bloco. Grande parte dos paraguaios demonstra acreditar que o futuro presidente atenderá as ansiedades da população.
Eleitores ouvidos pela Folha apresentaram seus argumentos para explicar mais esse capítulo da história recente dos dois países pós-ditadura militar. As consultas, realizadas sem caráter científico, permitem arriscar dizer que os paraguaios têm esperança de mudanças, enquanto os argentinos estão céticos quanto às melhoras.


