Apesar do ''bombardeio'' de informações, dos avanços e das inovações - características desse século, muitas pessoas não estão satisfeitas com as oportunidades disponíveis. Prova disso, é o resultado da pesquisa realizada pelo Projeto Qualidade de Vida da UniFil que revela que 32,5% dos londrinenses sentem insatisfação diante das oportunidades de adquirir novas informações e habilidades. Foram entrevistadas quase 2,5 mil pessoas em 17 macro-regiões de Londrina.

Para discutir o índice de insatisfação dos habitantes da terceira cidade mais populosa do Sul do Brasil, a reportagem da FOLHA entrevistou a doutora em psicologia social e institucional, Cristiane Vercesi.

Segundo ela, o ser humano nasce com a condição de adquirir outras habilidades. ''No capitalismo, devido à alta demanda, a pessoa sempre vai estar insatisfeita com algo'', atesta Cristiane.

Na sua opinião, por que 32,5% dos londrinenses estão insatisfeitos com as oportunidades?
Porque suas escolhas são pautadas no que a sociedade quer. A primeira insatisfação aparece na escolha individual. É preciso distinguir aquilo que eu quero daquilo que eu estou fazendo. Muita gente faz o que o grupo social determina, sendo totalmente influenciáveis. A maioria das pessoas são previsíveis e isso é um perigo, pois elas são manipuladas facilmente.

Falta oportunidade para adquirir informações e habilidades?
Nós vivemos na era da oportunidade e da informação, o que falta é foco pessoal. As pessoas estão insatisfeitas devido à multiplicidade de opções, que é típica do capitalismo. O ser humano tem que fazer escolhas o tempo todo. Acontece que a maioria das pessoas acaba fazendo o que a maior parte da sociedade faz. O capitalismo gera pessoas individualistas, competitivas e que buscam a produtividade.

Londrina oferece uma multiplicidade de opções? As pessoas estão insatisfeitas sem motivo?
Somos uma cidade pouco industrial e basicamente de serviços. Por isso, pela lógica deveríamos oferecer ainda mais possibilidades, oportunidades e opções. No entanto, fico com a hipótese de que é o sujeito que não sabe o que, onde e como escolher.

A correria impede que as pessoas busquem novas informações e habilidades? Como administrar bem o tempo?
Denomino a correria como ritmo da pessoa. As pessoas estão intolerantes desde que a sociedade instituiu que tempo é dinheiro. A informação fez com que tivéssemos acesso mais rápido a tudo e passamos a ser mais ágeis. Mas as relações humanas têm ritmos diferentes, sendo um fator muito importante na questão das escolhas. Acabamos consumindo os pacotes ou as identidades prontas sem sequer sabermos se nos serve.

Nesse contexto, a internet ajuda ou atrapalha?
Ajuda e atrapalha muito. Ela pode ajudar no acesso à informação, pois é um mundo à parte e pode atrapalhar se não for utilizada com critérios. A internet é igual a uma arma, é preciso saber usá-la.

O que a pessoa pode fazer para se sentir mais satisfeita e realizada?
Ela tem que se questionar: quem sou eu, até onde quero chegar? Eu acho que as pessoas não sabem o que querem para si e não param para pensar nisso porque é muito angustiante. Isso gera ansiedade e depressão. Para se sentir mais satisfeito, o indivíduo precisa, pelo menos, saber aquilo que ele não quer para si.

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