Inimigos criados por nós mesmos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de setembro de 2001
Mark Sommer 
No final, os que sequestraram os quatro aviões que torpedearam o World Trade Center e o Pentágono serão detidos, julgados e presos. Também se lançará a culpa (corretamente ou não) às mentes que dirigiram esses atos. Mas, estabelecer definitivamente a culpabilidade e, portanto, conseguir justiça, continuará sendo tremendamente difícil. Não só porque isso é tão invisível quanto presente, por estar muito dentro de nossas almas e, também, porque é indesejável. Além disso, é um produto de nossas próprias ações e crenças, bem como as de suas próprias.
O aspecto mais inquietante é que nós, norte-americanos, estamos irremediavelmente implicados em um crime horrível que, ao menos em parte, nos autoinfligimos. Em sua essência, os ataques - e os atos terroristas que inevitavelmente se seguirão à represália - é a salva inicial de uma luta sem piedade entre os todo-poderosos e os completamente impotentes. É, segundo o presidente Bush - e seus aliados europeus nunca se cansam de dizer - uma luta entre a democracia e a tirania, entre a civilização e o terrorismo.
Aqueles que estão do lado da democracia e da civilização não estão, necessariamente, situados na Casa Branca ou em Whitehall, e os que participam de manifestações nas ruas não são primariamente anarquistas nem terroristas, mas cidadãos que buscam reinstalar as tradições democráticas que lhes foram roubadas pelos que querem se fazer passar por salvadores da civilização.
Alimentando-se com uma dieta televisiva de excessos materiais e violência, milhares de milhões de pessoas que vivem com US$ 1 por dia tornaram-se dolorosamente conscientes da existência de quem ganha R$ 1 mil por minuto e da imperdoável disparidade entre os destinos destes e os seus. Essas atrozes diferenças provocam ressentimento, e se não são enfrentadas com determinação, os que têm algo a perder condenam-se a si mesmos a uma vida de interminável insegurança causada por quem não tem nada a perder.
O terrorismo não é o único inimigo que ajudamos a criar. A alteração climática, a instabilidade econômica, a degradação do meio ambiente, a bioinvasão e o reaparecimento de enfermidades que acreditávamos vencidas, como a tuberculose e a malária, agora se converteram em inimigos muito mais ameaçadores do que as nações-estados que nós, rotineiramente, apresentamos como demônios. E nenhum desses inimigos pode ser derrotado por meios militares convencionais ou não.
Para que serviria instalar um escudo antimísseis se temos de nos defender é dos tremendos furacões ou das grandes inundações que nos açoitam há um século? Poderia um bombardeio espacial aniquilar a Aids, o ébola ou o vírus do Nilo Ocidental? Na verdade, cada dólar ou rúpia gasto em armamentos anacrônicos para defender-se de inimigos em grande parte imaginários é um dólar ou uma rúpia a menos para nos defendermos das convergentes ameaças suscitadas por descuidadas ações humanas.
Essa é a má notícia: lutamos contra o inimigo errado e com armas erradas. Contra aqueles que deveriam ser nossos aliados com armas que estão demolindo o cimento de nosso futuro bem-estar. E as boas notícias procedem diretamente das más. Porque, embora sejamos os agentes de nossa própria perdição, também somos, potencialmente, nossos próprios e melhores salvadores. Assim como nossos próprios e piores inimigos, somos também nossos próprios aliados.
Os inimigos que agora enfrentamos são tão poderosos, tão impessoais em seu aspecto e tão irresistíveis em seus impactos que nos golpearam tanto a todos, individualmente e juntos. A mesma emocionante unidade com a qual os norte-americanos, seus aliados e adversários responderam imediatamente após a comoção provocada pelos ataques ao World Trade Center tem o potencial para juntar a todos nós no sentido de enfrentarmos coletivamente as catástrofes naturais, financeiras e sociais que nos esperam. Porque é quando estão mais submetidos a grandes pressões que os seres humanos se mostram mais capazes de auto-sacrifício e de agir em favor do bem comum.
Entretanto, tais respostas não estão asseguradas, especialmente quando uma inicial efusão de generosidade é logo substituída por uma ''fadiga de compaixão''. Tampouco, até agora nunca experimentamos os desastres simultâneos com que provavelmente nos castigarão combinações de graves distúrbios climáticos, degradação ambiental e apuros econômicos. Porque estamos entrando em uma era de instabilidade crônica, em que as placas tectônicas que se estendem por debaixo do que pensamos seja a condição ''normal'' e permanente do planeta mudem de posição e se choquem entre si de modo irreversível e desconcertante.
Nenhum destes pesadelos é irresistível. A esperança subsiste porque temos em nossas próprias mãos os meios para nossa própria salvação. E, para salvarmos a nós mesmos, devemos, primeiro, reconhecer que nosso pior inimigo não é ''o outro'' - seja árabe, judeu, norte-americano ou chinês - mas nossa tragicamente equivocada crença de que existe ''um outro''. O que há, na realidade, é um ''nós'' neste solitário universo e, gostemos ou não, somos completamente responsáveis por nossos destinos.
Nossa melhor defesa é olharmos no espelho e fazer a paz com o que virmos nele. Armados com tal entendimento nos transformaremos nos guerreiros do espírito que necessitamos ser para superar os titânicos desafios que criamos.
- MARK SOMMER é ensaísta e colunista em Berkeley (EUA) e dirige o Mainstream Media Project, para levar novas vozes aos meios de comunicação (IPS)


