Causou perplexidade a inusitada liminar concedida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, impedindo que o Conselho de Ética da Câmara abrisse processo contra seis deputados do PT acusados de envolvimento no esquema da corrupção mais especificamente a distribuição de verbas por via do publicitário Marcos Valério. A medida caracteriza ingerência em decisões soberanas do Congresso e abre um precedente incômodo, porque vários outros deputados envolvidos em denúncias semelhantes também desejam agora beneficiar-se da prerrogativa. Entre eles o agora deputado José Dirceu, que após a decisão de Jobim ingressou com petição no Supremo pedindo para ser incluído no benefício, e já foi atendido. Outros doze deputados também se movimentam no mesmo sentido, incluindo José Janene, do PT paranaense e um dos mais citados no escândalo do mensalão. O relator do processo, ministro Carlos Velloso, pode revogar a liminar, mas o ato que segundo Jobim foi de sua própria conta, por considerar ''urgente o caso'' está dando novo fôlego aos parlamentares para eventual renúncia e dessa forma conservar o direito político de reeleição. Não é usual o presidente do Supremo Tribunal Federal tomar decisão em mandado de segurança, como o impetrado terça-feira no começo da noite por aqueles seis deputados petistas e já na manhã do dia seguinte acatado. ''Nelson Jobim é um empregadinho de Lula'', reagiu de pronto a deputada tucana Zulaiê Cobra. O presidente do STF tem declarado que o Poder Judiciário não pode interferir em questões de outros Poderes, por isso a quebra desse princípio provoca um desconserto e uma natural indignação, não apenas por parte da comunidade sã do Congresso que deseja a apuração das denúncias com a maior clareza e lisura mas também no seio da opinião pública. Num momento de certo alívio pela cassação do espetaculoso Roberto Jefferson um desfecho esperado, porque, se ele foi o detonador de todo o processo que rola, também confessou-se beneficiário do recebimento de verbas a surpreendente liminar chega em hora inoportuna e causa inquietação. O argumento de Jobim de que os parlamentares do PT ''não tiveram o direito de defesa prévia'' e que isto ''viola os princípios constitucionais'', remete para a memória de que idênticos princípios são violados por parlamentares e por importantes homens públicos, e nunca houve pressa em considerar isso ''caso urgente''. A liminar, se pode ser revogada, figura como um corpo estranho que emerge como mão socorrista, e não em defesa da socidade esperançosa de que a moralidade pública se instale, mas em defesa de parlamentares sob suspeita, alguns deles notórios frequentadores do noticiário sobre corrupção.

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