Curitiba - Pedágio nas estradas do Paraná sempre foi assunto polêmico. Tanto que o governador eleito Beto Richa (PSDB) já se comprometeu em negociar a redução das tarifas com as concessionárias. O professor Ricardo Bertin, coordenador-adjunto do curso de engenharia civil da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), no entanto, é categórico quando fala do assunto: ''Sou um defensor do pedágio'', diz ele, argumentando que esse é o modelo mais adequado para o Brasil, um país carente em infraestrutura.
''O Brasil tem muita estrada para ser asfaltada. O Paraná tem cidades que não têm estradas asfaltadas. O modelo permite que o governo deixe de lado a manutenção de estradas que têm um tráfego que permite cobrar pedágio e passe a investir este saldo de receitas nas estradas que não têm pavimentação nenhuma'', afirma nesta entrevista à FOLHA.
®MDBO Há dois tipos de contratos com concessionárias de pedágio no Paraná. Os mais antigos e mais caros, e os contratos mais recentes, que têm preços bem mais baixos. Como o senhor analisa esses dois tipos de contratos?®MDNM
O primeiro modelo de pedágio no Paraná foi a oferta de quilômetros de rodovias do Estado para serem gerenciadas pelas concessionárias. Estas, em troca, ofereceram dar manutenção em outros trechos. O outro modelo é a oferta de menor tarifa, que é o modelo que o governo federal implantou: eu aceito a concessão e oferto a menor tarifa aos usuários. Tem vantagens e desvantagens nos dois modelos.
®MDBO E quais são? O segundo modelo, com tarifas mais baixas, não é mais vantajoso para o usuário?
®MDNM O custo do pedágio não tem a ver com o modelo, tem a ver com o volume de tráfego que entra nas rodovias.®MDBO É simples fazer uma conta de quanto vai custar o pedágio: eu pego todos os custos, como custo de operação, de manutenção, de serviços que presto aos usuários, de empréstimos bancário etc. Então, divido os custos mais meu lucro pelo número de veículos que trafegam na rodovia. Aí tem uma diferença, porque as estradas no Paraná têm tráfego bastante menor do que, por exemplo, a BR-116, que tem o outro modelo de concessão. Já trafeguei nas duas estradas, e as daqui estão bem melhor do que a 116. Agora, não dá para criticar porque desconheço o cronograma de obras dessas concessões. Existe um contrato, se ele é bom ou mau, pode-se discutir, mas até o momento a Justiça tem dito que ele tem que ser cumprido, tanto que em oito anos o ex-governador Roberto Requião (PMDB) não conseguiu romper, porque ele é um ato jurídico perfeito.
®MDBO O governador eleito Beto Richa disse que vai tentar negociar com as concessionárias para reduzir as tarifas. O senhor acha que há brecha para revisões?
®MDNM Todo contrato é passível de renegociação, mas será preciso pactuar o equilíbrio econômico-financeiro, porque as concessionárias pegaram aportes de entidades financeiras, que têm que ser pagos. Uma forma possível seria alongando o contrato. Assim uma obra que a empresa teria que fazer em 2011, por exemplo, para diminuir a tarifa, poderia ser postergada para 2021, por exemplo. Aí a empresa só vai gastar depois e poderia reduzir a tarifa.
®MDBO O pedágio paranaense é caro? Os serviços prestados em outros Estados são melhores?
®MDNM A pergunta que se faz é se existe um custo de pedágio associado. Ou seja, se eu tirar o pedágio, baratearia o custo? Isso já aconteceu uma vez, por negociação do Roberto Requião. Ele conseguiu reduzir a tarifa em alguns trechos da concessionária em Foz do Iguaçu. Isso barateou alguma coisa? Pelo que me consta, não.
As estradas estaduais pedagiadas de São Paulo têm nível próximo à concessão da BR-116, que é federal, mas é difícil discutir preço de pedágio sem saber qual o volume de tráfego, quais são os custos da concessionária e o que ela está oferecendo. Aqui, ela pode oferecer uma coisa e cobrar mais caro, lá pode oferecer menos e cobrar mais barato. Sem embasamento técnico é difícil dizer o que está caro e o que está barato.
®MDBO O senhor é a favor do pedágio?
®MDNM É claro para mim que tem que existir o modelo do pedágio, porque é o que garante que sobre dinheiro para os governos estaduais e federal para investir em outras estradas. O Brasil tem muita estrada para ser asfaltada. O Paraná tem cidades que não têm estradas asfaltadas. Então, o governo pode deixar de lado a manutenção de estradas que têm um tráfego que permite cobrar pedágio e passar a investir este saldo de receitas nas estradas que não têm pavimentação nenhuma. E tem estradas que nem construídas foram. O Brasil tem cerca de 130 mil quilômetros de estradas pavimentadas, isso é o que os Estados Unidos têm só em pavimento e concreto. Então nós temos mais ou menos entre 5% e 10% da malha pavimentada americana. Então eu sou um defensor do pedágio, porque sobra mais dinheiro.

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