Infra-estrutura que falta ao Brasil
O que está acontecendo com as montadoras do pólo automotivo paranaense, que enfrentam o problema da escassez de peças porque os fornecedores não estão acompanhando o aumento da produção, é uma amostragem do que poderá ocorrer no País se houver uma arrancada mais agressiva do crescimento produtivo, porque a estrutura existente está em descompasso com projetos de expansão da atividade econômica. Ontem, em Ribeirão Preto, o ministro Antonio Palocci disse que, depois do sucesso do agronegócio, hoje forte sustentador da economia e angariador de divisas externas, 2004 será o ''ano da indústria'' porque o setor está em processo de aceleração. É uma boa notícia, mas não se imagina como os setores agregados, entre eles o dos fornecedores de peças, vão acompanhar esse ritmo se lhes falta a capacidade instalada para atender a um fluxo mais acelerado da demanda. No caso do Paraná, percebeu-se que, além da insuficiência de peças ante um simples excedente de produção da Audi-Volkswagen, não há caminhões-cegonha, em número correspondente, para transportar os veículos produzidos além do tradicional. Mas não só isto, porque faltam também pneus. Uma fórmula foi desalecerar a linha de produção, ou seja, uma marcha a ré depois do avanço. O mesmo ocorre com a fabricante de tratores e máquinas agrícolas New Holland, que já parou duas vezes este ano, porque os fornecedores de componentes não venceram o aumento solicitado pela indústria. Há uma evidente falta de estrutura, mas tal não poderia existir com a economia desaquecida, significando que haverá colapsos, e não apenas nos setores apontados mas em toda a malha produtoras de bens e serviços. O Brasil teve uma revelação dessa insuficiência por ocasião do Plano Cruzado, quando o congelamento de preços de curta duração provocou uma corrida às compras e em poucas semanas tudo estava escasseando, até porque o oportunismo se implantou e comerciantes passaram a esconder mercadorias para especular nos preços. Hoje, se o Brasil está convertido num grande exportador, a estrutura portuária é deficiente e as mercadorias que chegam para embarque vão sendo encaminhadas para a chamada linha vermelha, que é a da espera. Dias atrás, neste espaço, falamos do mau estado de conservação das rodovias brasileiras, por onde trafegam as cargas. A situação é idêntica em todos os segmentos de transporte de mercadorias, e não apenas no que respeita às vias mas a toda a infra-estrutura logística. Pode-se imaginar o que ocorrerá, daqui para a frente, com o contínuo aumento da produção agrícola e com o agora anunciado crescimento da indústria, triunfalmente anunciado pelo ministro Palocci. Boas notícias de um lado, a mostrar um aspecto do Brasil inevitavelmente fadado a crescer, mas de outro a triste constatação de que há muito ainda por fazer neste país para adequá-lo a uma realidade desenvolvimentista que se almeja. E certamente não serão apenas peças e infra-estrutura que irão estreitar os gargalos, mas também a escassez de mão-de-obra qualificada. Menos mal, porém já se pode avaliar que há longo caminho a percorrer até ajustar todos os componentes dessa complexa engrenagem.





