Infovias, estradas do futuro
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de junho de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Na quarta-feira desta semana, os jornais anunciavam em grandes manchetes que a confiança do povo no Plano Real estava abalada. Para tanto, a imprensa se baseava numa pesquisa de opinião realizada pelo Ibope, a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo a pesquisa, em março, 46% dos entrevistados acreditavam que o Real seria um sucesso. Depois de 60 dias, 36% continuavam com a mesma perspectiva.
Também caiu um pouco, segundo o Ibope, o número de pessoas cuja impressão é a de que sua vida melhorou ou melhorou muito após o Plano Real. Em março, 55% tinham essa impressão. Em maio, 47% mantinham a mesma opinião.
Para o presidente da CNI, senador Fernando Bezerra (PMDB-RN), os resultados não têm muita explicação, os números falam por si só. Mas será que falam mesmo?
Creio que para responder a essa pergunta terei que considerar a questão das pesquisas na Ciência Social. Naturalmente, não poderia, como socióloga, criticar a importância desse instrumento capaz de auxiliar a compreensão da realidade, através de técnicas, na sua maior parte, quantitativas. Mas posso criticar, isto sim, o uso que muitas vezes se costuma fazer das pesquisas, falseando-as ou deturpando a interpretação dos dados.
Para dar um exemplo do que me refiro, recorro a Roger-Gerárd Schwartzemberg em sua magistral obra O Estado Espetáculo. Conforme esse autor, a publicação, durante a campanha, de sondagens em torno das intenções de votos poderá influir sobre os comportamentos eleitorais. Dessa maneira, as sondagens criariam a opinião, tanto ou quanto, ou talvez mais do que a mediriam. É que normalmente existe o chamado efeito bandwagon, ou seja, os hesitantes saltam para dentro do trem da vitória. Eles aderem à candidatura colocada na frente pelas sondagens pré-eleitorais para estar ao lado do vencedor e com ele se identificar ou para estar de acordo com a opinião majoritária. Desejando fazer como todo mundo, o eleitor abandona sua escolha inicial. Volta-se para o candidato sustentado pela maioria. A sondagem passaria então a constituir um instrumento de manipulação e de pressão. Criaria um sentimento de unanimidade ou, pelo menos, de preponderância em favor de um candidato.
Os resultados da pesquisa realizada a pedido da CNI, em que pese a responsabilidade de um instituto como o Ibope, não têm muita explicação, como disse o senador Fernando Bezerra. Todavia, diante do estardalhaço que se formou, tais resultados podem se prestar bastante bem a uma manipulação política e a uma clara indução da opinião pública, em que pese o fato de que provavelmente neste país justamente os mais pobres nunca comeram, beberam, fumaram, consumiram e se divertiram tanto como depois do Plano Real ou, mais especificamente, depois que o governo do presidente Fernando Henrique conseguiu frear nosso maior flagelo, a inflação. Contudo, se a imprensa começa a martelar, sobretudo através da magnífica credibilidade dos números, que tudo vai de mal a pior, a maioria repetirá a mesma coisa. E a quem interessa isso? Evidentemente, não ao povo, mas a determinados políticos. Afinal, a campanha presidencial já começou. Que o digam Lula, Brizola, Miguel Arraes etc. E vale tudo para desmoralizar o presidente, candidato potencial à reeleição. Inclusive, pesquisas.
Outro aspecto interessante a ser notado é que quando as pessoas respondem ao questionário de uma pesquisa geralmente falam a esmo, sem muito conhecimento do que lhes é perguntado. Elas se baseiam no seu curto universo particular, nos seus sentimentos, estando longe de ter ciência das questões estruturais ligadas à economia e à política. Mesmo os acontecimentos realmente importantes que se dão no seu entorno mais próximo são desconhecidos ou pouco assimilados. Pergunte-se, por exemplo, a uma amostra significativa da população de Londrina se alguém soube que dia 9 deste houve uma solenidade em que o presidente da Telepar, Álvaro Dias, deu início à construção das obras da Rede de Fibras Opticas do Paraná, Rotpar, no trecho Londrina-Maringá-Apucarana, dando assim sequência ao esforço de modernização do governo Fernando Henrique Cardoso. Dificilmente alguém vai dar conta do acontecimento. Entretanto, como afirmou Álvaro Dias, estamos vivendo um momento histórico. A Telepar está implantando um sofisticado sistema de telecomunicações que vai dar suporte ao desenvolvimento do Paraná.
Além de os investimentos da Telepar na região criarem novas frentes de trabalho, a Rotpar substitui as atuais rotas interurbanas de microondas, ampliando a infra-estrutura de telecomunicações para atender à demanda por serviços de telefonia convencional e celular, multimídia e comunicação de dados. Essas chamadas infovias, ou estradas da comunicação, nos ligam com o futuro, e constituem, pois, uma espécie de revolução das comunicações, que permite, entre outras coisas, num primeiro momento, o aumento de 8 mil para 30 mil ligações ao mesmo tempo. Mas o sistema que está sendo contratado tem capacidade potencial para mais de 1 milhão de ligações telefônicas simultâneas.
Pergunte-se, porém, às pessoas, se elas sabem que suas vidas estão mudando vertiginosamente por conta destes avanços. É de duvidar que consigam dar a resposta correta. É mais fácil que externem aquela vaga impressão de que tudo vai muito mal.


