Dificuldades à vista
A morte de Aníbal Khury dificultará as negociações do Palácio Iguaçu com a Assembléia Legislativa. Esta era a análise corrente nos bastidores da política ontem. Em vez de tratar das questões pertinentes ao Poder Executivo com apenas uma pessoa, no caso o centralizador e todo-poderoso Aníbal Khury, a partir de agora o governador Jaime Lerner terá de, se quiser maioria em plenário, reportar-se a diversos grupos internos que se formaram ao longo desses meses: a bancada ruralista, o bloco dos 21, os lerneristas de primeira hora, os tucanos dissidentes e por aí afora. Com Aníbal Khury, a subserviência dos deputados era mais fácil de se obter, principalmente em votações polêmicas como foi a aprovação da venda do Banestado, a criação da Paranaeducação e da Paranaprevidência. Sem Aníbal Khury como mediador, Lerner terá de conquistar seus aliados na base do agrado pessoal.



Fora da área
Parte do primeiro escalão do governo Lerner ficou incomunicável ontem, no corre-corre por conta da morte de Aníbal Khury. As pessoas que ligavam para alguns secretários se depararam com mensagem da Tim Telepar Celular. Os mais atentos ligaram para a operadora para informações. Surpresa: os telefones foram cortados por falta de pagamento.
Encontro
Lerner cruzou no velório de Khury, ontem, com seus dois mais importantes adversários políticos. Primeiro foi com o senador Roberto Requião (PMDB). Não houve nem troca de olhares. Minutos depois, foi a vez de o governador testar seus nervos e resistência com Alvaro Dias (PSDB), que também acompanhou de perto o funeral.
Homenagem
Ricardo Khury Filho e a tia, Jandirinha Khury, fizeram uma última homenagem ao avô e sogro respectivamente. Puseram no caixão lápis e bloquinho com folhas em branco. Durante internamento na UTI, Khury se comunicava com a família escrevendo recadinhos em bloquinho similar.
Estilo próprio
‘‘Ninguém da elite ousava enfrentar o Aníbal Khury. Hoje, estamos sepultando um método próprio de se fazer política no Paraná, de domínio total sobre todos os poderes.’’ Avaliação do coordenador do MST, Roberto Baggio, que deixou ontem à tarde o acampamento por alguns minutos para ir ao velório.
Royalties
O secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, embarca hoje, depois do sepultamento de Khury, para Brasília. O governo Lerner volta à carga na defesa da antecipação dos royalties da Usina de Itaipu. As negociações serão feitas com a Secretaria do Tesouro Nacional que, na semana passada, esteve vistoriando, número por número, as finanças do Paraná.
Perguntinha
Secretário do Governo Cássio Taniguchi, Marcos Isfer (PFL) volta agora para a Assembléia Legislativa?

Disputa
A primeira empreitada do Palácio, agora sem Khury para estancar crises, será a eleição do novo presidente da Casa, marcada para esta sexta-feira, conforme diz o Regimento Interno nos casos de vacância. O verniz é de tristeza, mas Nelson Justus, Valdir Rossoni e Hermas Brandão, todos do PTB, se engalfinham pelo poder.
Amortecedor
‘‘O Aníbal era o harmonizador da política do Paraná. O algodão entre os cristais.’’ Do ex-governador Paulo Pimentel (PFL), ontem, logo depois de anunciada a morte do deputado, que segundo o boletim médico do Hospital Santa Cruz, teria ocorrido às 7h35.
Sepultamento
O corpo do deputado será enterrado às 10 horas, no Cemitério Parque Iguaçu, em Curitiba. Antes, às 8 horas, tem culto ecumênico no saguão do Palácio, onde Khury está sendo velado desde ontem.
Cerejeiras
Uma das últimas medidas de Khury como presidente da Assembléia foi autorizar a compra de mil mudas de cerejeiras do Japão. Ele fez isso na sexta-feira, 20, três dias antes de ser internado para tratamento de hemorragia intestinal. O objetivo de Khury era que as cerejeiras fossem plantadas na praça Nossa Senhora de Salete, em frente ao Palácio Iguaçu, depois que os sem-terra levantassem acampamento.
Doação
Para isso, ele fez um convênio verbal com o prefeito Cássio Taniguchi (PFL), que aceitou a doação das plantas. As mudas começaram a chegar ontem a Curitiba. ‘‘O deputado tinha certeza que o MST deixaria a praça nos próximos dias e ele queria ver o lugar mais florido’’, disse um assessor.
Coincidência
O lançamento do livro ‘Maurício Fruet – um brasileiro cordial’, que seria no plenário da Assembléia ontem, no final da tarde, foi adiado. Hoje, completa um ano da morte de Fruet, ex-deputado e ex-prefeito de Curitiba.
Para depois 1
Também foi cancelada a reunião entre o secretário de Estado do Planejamento, Miguel Salomão, e representantes das Organizações Não-Governamentais (ONGs) sobre a lei estadual de recursos hídricos. A cerimônia de assinatura do contrato de financiamento do HSBC Bamerindus para construtoras associadas ao Sinduscon (Sindicato das Indústrias da Construção Civil) do Paraná foi adiada em sinal de luto pela morte de Khury.
Para depois 2
Bem como a filiação de 40 prefeitos prometida para ontem, no início da tarde, pela direção estadual do PFL.

Vapt-Vupt
• As cerca de 200 coroas em homenagem à morte do presidente da Assembléia ultrapassavam ontem à noite fila de 100 metros. As corbelhas, uma ao lado da outra, circundavam a sede do Palácio Iguaçu.
• Lerner fez um apelo ontem, no início da noite, para que nenhum fotógrafo tirasse fotos de perto do caixão do deputado. Para não magoar ainda mais a família, abalada com a morte, e de plantão durante todo o cortejo de políticos e autoridades públicas.
• O caixão que leva o homem mais poderoso da política do Paraná não é dos mais caros, sendo serviço de funerária que atendeu ao chamado. A Funerária São Francisco informou que a urna comprada é para pessoas com tamanho mediano, e tem preço intermediário ao caixão mais caro, de R$ 12 mil.
Leandro Donatti (interino), com redação e sucursais

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