No Brasil, o sinônimo da privatização chama-se telefonia. Durante décadas o setor foi um monopólio do governo, o que obrigou milhões de brasileiros a permanecer anos a fio na lista de espera por um aparelho telefônico. A partir do consenso de Washington, a tigrada verde-amarela começou a ouvir - e depois a sentir no bolso - as virtudes da chamada globalização. Como era um negócio difícil de traduzir para o bom português ou então convencer o povão que a coisa deveria ser séria resolveram ensinar na prática. Nada como iniciar o processo por um setor rentável, pelo menos para os intermediários da venda e compradores, e que, ao mesmo tempo, fosse capaz de doutrinar a massa destas, digamos, vantagens do capitalismo moderno. Daí - imagino - o porquê tudo começou com a telefonia. Hoje é possível comprar um telefone em qualquer esquina e instalar em menos de uma semana pagando um preço muito aquém do que era cobrado. Maravilha de país!

A questão é o que vem depois. Primeiro cobra-se por tudo, mesmo que os serviços sejam ruins ou ineficientes, ineficazes ou até mesmo cobra-se pelo que não fazem. Qualquer órgão de defesa do consumidor é capaz de provar que o número de reclamações contra as empresas telefônicas é quilométrico. Quem tem telefone tem pelo menos um queixa.

Noutro dia, na condição de simples usuário liguei ao número 102 para pedir uma informação. A atendente, solícita e bem treinada, deu as boas vindas e pôs-se à minha disposição. Pedi o número que me interessava, afinal, o que constava na lista telefônica como sendo, não era. Prontamente uma gravação ditou o número. Pela informação, acabava de pagar R$ 2,05.

Teclei no aparelho os dígitos que recebera e, pra minha infelicidade, ninguém atendia. Repeti o gesto várias vezes e nada. Voltei à telefonista e contei a história. Recebi um novo número e, junto, uma dívida de R$ 2,05 debitada em minha conta. Ansioso, voltei à extenuante tarefa de busca quando, do outro lado da linha, ouvi o tom de fax. Contive a ansiedade e, pela terceira vez, fui obrigado a chamar o 102.

Repeti a mesma lengalenga à atendente, afinal, era uma diferente da outra. Educadamente e sem perder o equilíbrio emocional ela ouviu toda minha lamúria com paciência, pediu desculpas e informou um novo número. Agradeci e, ante a compreensão da jovem de voz doce e amável, achei melhor conter minha ira latino-americana por ser obrigado a desembolsar, mais uma vez, R$ 2,05, afinal, o telefonema a ser dado era importante.

Disquei e atentamente fiquei ouvindo o tom de chamada. Finalmente, uma voz educada me atende e diz: ''Bom dia, Polícia Federal às suas ordens''. Não fosse eu um cidadão pacato e sem qualquer tipo de dívida com a Justiça; não vivendo mais nos tempos negros da ditadura militar e tendo ouvido as notícias da manhã que o presidente FHC continuava impávido no Palácio do Planalto, certamente teria sido vítima de uma síncope cardíaca.

Mais uma vez fui obrigado a contar a moça - deveria ter perguntado seu nome! - toda a história para me desculpar. Ela disse que não me preocupasse, afinal, estava tão acostumada a receber ligações como a minha que até sabia de cor e salteado o número que procurava. Gentilmente me forneceu a informação. Gratuitamente, o que é melhor. Aliás, minto. Ela me pediu, encarecidamente, que ligasse novamente à telefônica para reclamar, afinal, além de eu pagar por informações erradas, ela não aguentava mais receber chamadas indevidas. Como trato é trato, retornei a ligação e reclamei. Só esqueci de perguntar se, para reclamar, terei de pagar, outra vez, R$ 2,05.


- RENÉ RUSCHEL é economista e jornalista em Curitiba
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