Os Estados Unidos de Barack Obama e seu bordão ''Yes, we can'' (Sim, nós podemos) consagrado via internet. No Brasil, Lula contra todos os prognósticos, reeleito em 2006. Exemplos não faltam de como a mídia pode dar seu empurrãozinho na consagração - ou não - de um candidato. Mais que isso: ela forma atores políticos.

Quem defende a ideia é a professora Carly Batista de Aguiar. Autora do livro ''Comunicação e Política: atores, momentos e estratégias'', Carly, que é professora colaboradora da UEL e da Universidade de Marília, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e pós-doutora pela Universidade de Barcelona vai além: ''Os diversos meios de comunicação educam politicamente a população''.

A mídia de fato forma atores políticos? Até que ponto?
A mídia realmente forma atores políticos. Tanto as mídias convencionais - jornal impresso, tv e rádio - como as novas mídias, como a internet. E mais: não somente forma como ajuda a construir a cultura política, educando politicamente o cidadão. Temos visto a transformação da política junto com a transformação da mídia.

A ''Obamania'' é um exemplo dessa comunicação efetiva?
Sim, mas o caso da eleição nos Estados Unidos é mais complexo. Lembro-me da Fênix, que levanta voo ao anoitecer. Em síntese, quando passarmos a compreender esse fenômeno, é porque ele já passou de seu auge. Por ora, com a Obamania, todos os palpites são interessantes. Vale lembrar que a política norte-americana foi sempre marcada pela evolução dos meios de comunicação. Franklin Roosevelt se destacou na era do rádio. Outro presidente, John Kennedy, consagrou-se quando a televisão ganhava impulso, e Bill Clinton, de certa forma, já pegou uma ''onda'' no despontar dessas novas tecnologias. Foi Barack Obama quem levou essa consagração ao ápice.

E a cultura pop, também foi um fator determinante, não? Afinal, quando celebridades dão as caras a favor de um candidato...
Exato. Geram a identificação. O que há de comum nos comentários e na percepção é que o fenômeno Obama não se trata apenas de uma evolução da relação política e comunicação de massa, mas também de entender o momento histórico. Obama é uma marca, independente da internet ou de qualquer fenômeno da cultura pop.

Mas a marca Obama sem a internet seria a mesma? Numa escala mundial, qual seria a consagração do famoso ''Yes, we can''?
A mídia não só cria atores políticos como articula redes, setores e pessoas que são uma marca. Não sei até que ponto o Obama seria esse fenômeno. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso declarou, certa vez, ser um ator político criado pela mídia: professor da USP, que falava bem, lançou-se pelo MDB e ganhou a eleição para Senador. Daí em diante nós conhecemos a história. Com Obama, que é um político com experiência, foi diferente: candidato num momento histórico que sinaliza o cansaço, ele emplacou que, com ele, a cultura norte-americana ganharia um plus. O ''Yes, we can'' é a síntese de que o sonho não acabou.

No Brasil de Lula com 84% de aprovação segundo recentes pesquisas, qual a postura da mídia?
A mídia sempre fez oposição a Lula, foi antilulista e começou a ser pró-lulista no dia da eleição de 1989. Ela começou a preparar essa postura logo após as eleições, 20 anos atrás. O Lula venceu as eleições contra toda a mídia. Mesmo sabendo que o quadro pendia para a reeleição, em 2006, a mídia fez oposição ao presidente.

O presidente Lula, então, não é um ator criado pela mídia?
Não. Seu perfil político foi construído na política mesmo, na esfera sindical, e não na intelectualidade. O fenômeno Lula é muito interessante e raro, porque parece se consolidar contra todas as expectativas criadas ao seu redor.

Nos últimos dias, o ministro da Justiça, Tarso Genro irritou-se com a imprensa e a chamou de neoliberal por conta das críticas à sua decisão de conceder o status de refugiado ao militante italiano Cesare Battisti. Uma colocação infeliz, não?
Esse caso é muito interessante do ponto de vista dos debates da opinião pública, em que a mídia é a figura de proa. O grande mérito dessa atitude é que desencadeou uma cobertura diferente do caso na Itália. O tema Cesare Battisti é bastante difícil, pois é preciso entender todo o processo, requer voltar a ler a história e é um desafio para a mídia. No auge do nervosismo, acusar a imprensa é a pior coisa que se pode fazer.

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