INFORMAÇÃO E SAÚDE - Dekasseguis em risco
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de novembro de 2008
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Fenômeno curioso e preocupante vem tomando conta das autoridades japonesas e brasileiras: o aumento da Aids entre os dekasseguis. Diferenças linguísticas e culturais são alguns dos fatores que colaboram para o agravamento do problema.
Os governos dos dois países vão promover campanha para informar os dekasseguis e concientizá-los. Foram feitas várias reuniões em diversos estados brasileiros para elencar propostas, que foram reunidas em um único documento em Brasília, que servirá de base para a ação, que deve entrar em vigor no próximo ano.
A professora Estela Okabayashi Fuzii, diretora do Departamento de Dekasseguis da Aliança Brasil-Japão e do Núcleo de Estudos de Cultura Japonesa da UEL, participou dessa reunião em Londrina. Ela conta como a cultura japonesa acaba influenciando o comportamento dos brasileiros.
De onde surgiu o projeto de trabalhar a AIDS com os dekasseguis?
Através do Ministério da Saúde, observando os casos mais complexos. Embora as ONGs façam um trabalho muito bom também, do lado do governo não havia nada, nenhuma iniciativa.
Ao que se credita o problema da Aids no Japão?
O problema ocorre também no Brasil, mas aqui o povo é mais aberto, tem mais conhecimento. No Japão, é um povo mais fechado. O currículo escolar não está contemplado com a educação sexual, o que no Brasil, para nossa felicidade, existe. Tem que começar pela educação, dentro da família e na escola. Mas a execução depende de uma maior abertura por parte da população. O próprio Ministério da Educação local vai precisar passar por reformulações para que dê resultados. E as ONGs também, podem atuar em conjunto.
Como se comporta o brasileiro que chega ao Japão?
Ele acaba contaminado por essa cultura japonesa. Um dado importante, que contribui para a evolução dessa infecção, é que as crianças e os jovens que vão junto com os pais para o Japão, nem sempre estão na escola. São 60 mil crianças e adolescentes brasileiros no Japão, que estão junto com os pais - 20 mil estão fora da escola. O que elas fazem enquanto os pais trabalham? Ficam assistindo TV e jogando videogame. Depois enjoam e vão para a rua, onde se juntam com outros que também vieram do Brasil. À medida que vão crescendo, vão se envolvendo com a parte sexual.
O idioma também é uma barreira, não?
Eles não sabem nem a palavra ''camisinha'' para pedir. Isso dificulta. As pequenas campanhas realizadas no Japão não são eficientes porque eles não sabem ler. As embalagens do preservativo parecem caixas de doces, não dá para identificar direito o que é. Tem que ir algo do país que ele conhece, onde ele nasceu, na linguagem que ele domina, para que realmente seja efetivo o trabalho de prevenção e a assistência também.
A assistência de saúde para os dekasseguis é satisfatória?
Lá não há o SUS que temos aqui. Ou o imigrante paga o seguro saúde e recebe assistência ou não paga e precisa passar pelos médicos particulares, que cobram muito caro.
Quais são as providências que serão tomadas?
Os objetivos agora são fortalecer os laços entre os governos brasileiro e japonês nesta área da doença; reforçar as ações das políticas em DST/HIV/AIDS para tentar diminuir a discriminação dos dekasseguis que estão no Japão; fortalecer as políticas de prevenção específica aos jovens dekasseguis e as ações de prevenção do HIV/AIDS para os futuros dekasseguis.


