O sr. é um crítico de juros altos. O que achou do aumento da Selic de 22% para 25%?
José Roberto Mendonça de Barros A decisão foi corretíssima. Embora eu não seja um fã ardoroso de juros altos, pelo contrário, a decisão foi corretíssima, inclusive na intensidade. Se nós fizermos um balanço do fim de ano, o ano que vem traz, na frente de todas as preocupações, o controle da inflação. É algo que não estava no nosso radar há cinco meses, e vai balizar a política macroeconômica em 2003.
Por quê?
Mendonça de Barros Primeiro, acho que definitivamente não é uma bolha. Uma bolha sugere algo que tem uma auto-correção. Não é isso o que está ocorrendo, por três ou quatro razões. A primeira é que não é necessário ter indexação formal para que haja um processo de realimentação da inflação. A Argentina, por exemplo, nunca teve um sistema de indexação formal como o nosso, e, no entanto, teve duas hiperinflações. Há mecanismos informais de realimentação que são bloqueados apenas quando a demanda não permite.
Quais são eles?
Mendonça de Barros Os mais comuns são as grandes empresas repassarem a inflação passada para os salários, aceitarem correções dos custos de suas matérias-primas e repassarem isso adiante. Outro problema é que ainda há muita pressão no atacado que não chegou no varejo. Nós fizemos um estudo de cadeias produtivas, olhando o que ocorreu nos últimos três anos em termos de aumento de custos e o que chegou ao varejo. Nós analisamos os setores de têxteis, eletrodomésticos e automóveis. Em todos os casos, é possível perceber claramente que houve pressões acumuladas de matérias-primas, sem falar no câmbio, que não chegaram ao varejo. E é isso que de repente começou a ir para o varejo e que ainda pode ser repassado. O terceiro é que, infelizmente, os choques de custos continuam ocorrendo. Basta ver o que está ocorrendo com os preços de petróleo. Além disso, os preços e tarifas públicas corrigidos pelo IGP-M já garantem que o IPCA de 2003 abre ''devendo'' cerca de 5% de inflação. O IGP-M acumulado em 12 meses deve atingir 25%. Quando se vê todos esses fatores, não faz sentido a tese da bolha.
Há outras características preocupantes do atual surto inflacionário?
Mendonça de Barros Eu queria chamar a atenção para dois fatores que ocorreram neste ano, diferentes de 1999 e 2001, que explicam o movimento atual. A primeira é a formação de preços na indústria. Em 1999 e 2001, a maior parte dos segmentos industriais absorveu aumentos de custos causados pela depreciação cambial, para manter participação de mercado. Neste ano, nós estamos notando desde junho no setor industrial que as empresas têm privilegiado o fluxo de caixa. Primeiro, porque não há tanta folga como no passado. Além disso, com a alta do endividamento, principalmente para quem tem passivo cambial, o sistema bancário está dizendo: ''Trate de melhorar seu fluxo de caixa, se não você não tem mais crédito''. Pela primeira vez desde a desvalorização de 1999, as empresas estão decidindo aumentar preços independentemente da participação de mercado. É por isso que chegou tão rápido ao varejo. E na agricultura os preços internacional de commodities estão subindo. Em 1999, quando o dólar subiu por causa da desvalorização, os preços internacionais dos produtos agrícolas estavam derretendo. Uma coisa compensou a outra. Mas neste ano o dólar e os preços das commodities subiram ao mesmo tempo, o que levou ao aumento dos preços dos alimentos. Por causa desses fatores, a inflação se tornou de fato uma enorme ameaça. Eu fico feliz que Antônio Palocci esteja reconhecendo que esse é o principal problema.
O que deve ser feito para controlar a inflação?
Mendonça de Barros Não tem jeito. A tecnologia de controlar a inflação é jogar a demanda para baixo. A política monetária é o principal instrumento, se expressando mais do que tudo pelo aumento de juros, para controlar a demanda e quebrar expectativas. Não se pode descartar, por exemplo, a necessidade de uma elevação dos juros em janeiro. Também é importante uma política fiscal austera, que já está suficientemente apertada.
Qual sua projeção para a inflação no ano que vem?
Mendonça de Barros Estamos projetando, no nosso cenário básico, um IPCA de 10%. Mas isso num cenário em que o combate à inflação é realmente prioritário. Com um câmbio médio entre R$ 3,40 e R$ 3,50, é possível que o IGP-M desacelere bastante, pois o dólar é quase tudo nesse índice. Nesse cenário, o IGP-M ficaria em cerca de 10% a 11%. Isso também leva em conta uma safra normal, ou seja, a oferta de produtos agrícolas tem que se normalizar.
Qual é o segundo grande desafio?
Mendonça de Barros Continuar a redução da vulnerabilidade externa e lutar para uma estabilização do câmbio, que seria importante. Em princípio, isso está bem encaminhado.
O dólar alto reduziu a vulnerabilidade externa, mas, além de ter iniciado o atual surto inflacionário, aumentou as dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida brasileira. É necessário elevar o superávit primário?
O mercado internacional deve se reabrir para o Brasil em 2003?
Mendonça de Barros Eu vejo o mercado internacional se abrindo para operações muito estruturadas e pequenas, o que é natural. Mas a abertura do mercado externo deverá mais ocorrer mais para o fim do primeiro semestre, depois de os analistas verificarem qual será a prática do futuro governo, principalmente se a política inflacionária vai ser de fato consistente e prioritária e o que vai ocorrer do ponto de vista das reformas. A melhora das condições de financiamento externo deve ocorrer no segundo semestre, desde que os avanços nessas duas áreas sejam perceptíveis e consistentes.
A aversão global ao risco deve continuar elevada?
Mendonça de Barros Acho que sim. A quebra da Conseco na quarta-feira, uma empresa de seguros e serviços financeiros, mostrou que pode haver mais notícias ruins no setor corporativo americano. O risco de guerra aumentou. E há países que estão com o sistema financeiro pressionado, como é o caso do sistema da Alemanha para não falar do Japão. Acho que a aversão ao risco vai continuar elevada. A restrição de crédito vai ser uma das características de 2003.
E como fica o crescimento em 2003, com esse cenário externo complicado e os juros básicos a 25% ao ano, talvez até mais altos durante algum tempo?
Mendonça de Barros Deve ficar entre zero e 1%, na melhor das hipóteses. O crescimento vai ser medíocre. Ou então a política vai ser inconsistente. Se a política for como está sendo prometida, centrada em derrubar a inflação, avançar no esforço fiscal e no ajuste externo o que está correto, a absorção doméstica vai ser pequena. Não há por onde crescer. É só analisar os componentes da demanda. O salário real está caindo, e não vai subir, até por causa da inflação. Eu não consigo ver os investimentos em máquinas e equipamentos se recuperarem significativamente. Os gastos do governo, por sua vez, estão trancados. As exportações devem dar um adicional positivo, mas correspondem a uma parcela pouco expressiva do PIB, não devendo provocar um aumento significativo do nível de atividade.
Qual deve ser o crescimento nos outros anos do futuro governo?
Mendonça de Barros Depende muito de quanto se avançar neste ano na questão das reformas, por exemplo. Mas não vai ser muito acelerado num primeiro momento, e nem pode, porque aí entra um outro tipo de restrição, a da infra-estrutura. A crise de energia elétrica no ano passado é um exemplo disso. Acho que não dá para crescer muito mais do que 2% a 3% em 2004. E pode avançar nessa faixa, se tudo correr bem, avançando para 4% no último ano. O crescimento é um processo construído, inclusive institucionalmente.
O PT está no caminho certo?
Mendonça de Barros Acho que sim. O partido teve a percepção de que a política macroeconômica tem que ser austera para recuperar as condições de governabilidade macroeconômica que o desequilíbrio externo tinha derrubado, e que isso tem que vir na frente do resto. Acho que a escolha do Palocci foi excelente. Ele fez uma boa gestão em Ribeirão Preto, e ele fala coisas em que ele acredita.
O sr. está otimista?
Mendonça de Barros Acho que o começo está sendo positivo, mas o PT vai ter que passar por um teste decisivo de consistência daqui a alguns meses, quando começar o duro dia-a-dia de governar, o partido vai aprender que o governo muda lentamente, que fazer reforma é muito mais complicado do que dizer que vai fazer. Não tenho a menor ilusão. O governo vai passar por um teste muito difícil no momento em que ficar claro que boa parte das propostas de campanha não poderá ser entregue talvez nem em 2004, porque as restrições são grandes. É natural que comecem as queixas. Acho que há gente otimista demais, minimizando o teste da realidade, quando o partido tiver que dizer não de manhã, não à tarde, não à noite para seus aliados, para pessoas que acreditaram na melhora. O poder ensina, as pessoas mudam, mas o custo do aprendizado, como mostra a história, não é trivial.

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