Infeliz do Estado que tem um governador como o nosso!
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de novembro de 2001
Elza Correia 
A imagem de ''super-homem'' se abateu sobre certos governantes do nosso País. Homens de fala mansa e envolvente que do dia para a noite, após assumir o poder, acreditam estar acima do bem e do mal. Ontem discursos democráticos, hoje ações ditadoras. Temos no Paraná um exemplo bem caseiro. O governador do nosso Estado, de posse do cargo, revelou extraordinária capacidade de desdenhar de seus comandados. Debocha de seu povo e passa por bom moço para o resto do Brasil. Há meses, os paranaenses assistem a uma publicidade que mostra a pujança de nossas cidades e a bravura da nossa gente. Gente da qual me orgulho, afinal também sou paranaense pé-vermelho de Londrina!
No entanto, devemos lamentar o governo que temos! Governador que perdeu a sua capacidade de governabilidade. Na última terça-feira, em Londrina, com medo dos manifestantes das universidades estaduais, comandou um forte aparato policial para inauguração da Casa de Custódia ignorando que a obra foi feita com recursos públicos, oriundos de impostos pagos pela população. Após a sua reeleição, sentou-se no trono do Palácio e, coberto pelo manto do faz-de-conta, empunha o cetro do ''tudo posso'' e envia aos seus súditos, ou melhor ao povo do Paraná, a tradicional ordem da Casa Grande: ''sebo no lombo e relho''.
Relho no lombo das esposas dos policiais que, para defender o salário de seus maridos e o sustento de suas famílias, comandaram um grande movimento reivindicatório no Paraná. Relho no lombo dos professores e funcionários das universidades estaduais do Paraná que deflagraram uma greve para denunciar o processo de sucateamento das estruturas públicas de ensino. Relho no lombo dos aposentados, dos trabalhadores demitidos em massa pelas montadoras que, usufruindo de todas as benesses do Poder Público, se instalaram no Paraná.
Relho no lombo dos estudantes, dos representantes da sociedade civil organizada e das lideranças políticas que se empenham em manter a Copel como patrimônio de todos os paranaenses. Relho no lombo das crianças e dos adolescentes carentes e em situação de risco que sofrem sucessivos cortes de verbas para projetos sociais. O açoite atinge diversas áreas.
Enquanto isso, o ''rei'' investe milhões em publicidade para manter um Estado virtual, cada vez mais longe do alcance do povo. Um estado inatingível, bom demais para ser verdade! A realidade, quem nos mostra, são os pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas, que constatam um índice de 20,88% de paranaenses vivendo abaixo da linha de pobreza. A mesma instituição dá conta de que 1.996.023 paranaenses vivem com uma renda mensal inferior a R$ 80,00. A região metropolitana de Curitiba registrou no período de 1996 a 99, o maior aumento de pessoas vivendo em situação de miséria em relação a outras cidades do Paraná.
O desemprego no Paraná atinge cifras assustadoras ao mesmo tempo em que o ''rei'' determina cortes sistemáticos na área social, usando, entre outros, o argumento das restrições impostas pela Lei de Responsabilidade Fiscal. A política de assistência social no Paraná tem ficado restrita à aquisição de cestas básicas e não contempla a geração de programas e alternativas que possam, de fato, restabelecer condições dignas de sobrevivência à população de baixa renda. O Programa ''Da Rua para a Escola'' foi interrompido em janeiro deste ano e só retornou em agosto com sensível redução na cesta básica para famílias carentes. Na área de segurança, a população vive uma situação de pânico. Em Londrina registramos, na segunda quinzena deste mês, a marca de 96 homicídios somente este ano!
Enquanto isso, nos salões palacianos, o governo vende o Banestado; investe pesado na privatização da Copel; obstrui CPIs; ignora o esquema de escutas telefônicas e continua enviando professores para treinamento e aperfeiçoamento em Faxinal do Céu enquanto transforma a vida desses mesmos mestres em verdadeiro inferno. Os docentes das universidades estaduais que o digam! Em greve há mais de 60 dias por melhores condições de trabalho e reposição salarial, servidores e professores das universidades estaduais convivem, diariamente, com a inversão de valores orçamentários em detrimento do ensino público. O orçamento que o governo do Estado propõe para bancar despesas, em 2002, com a Casa Civil, Gabinete do Governador, Secretaria de Estado e Publicidade é de R$ 252.230.810,00 contra R$ 329.060.590,00 para custear, também no próximo ano, as despesas com cinco universidades estaduais (UEL, UEPG, UEM, Unicentro e Unioeste).
Em Londrina, na Câmara de Vereadores, recebo um grande número de reclamações sobre a falta de atuação do Estado. O governo nunca esteve tão ausente e nem tão minimizado em sua responsabilidade para com sua gente que assiste pela tevê a um Paraná que não existe, que não é real, um Paraná de faz-de-conta... A população quer mais do Poder Público. Convivemos hoje com uma sociedade organizada e ciente dos seus direitos e deveres. Uma população que poderá mudar o rumo desta história e será capaz de uma cruzada contra o Estado antidemocrático no qual o Poder não emana do povo! Enquanto perdurar este Estado, direi, lamentando profundamente: ''Infeliz do Estado que tem um governador como o nosso!''
- ELZA CORREIA é vereadora pelo PMDB na Câmara Municipal de Londrina


