Infeliz aniversário - Sérgio Gadini
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de março de 1999
Sérgio Gadini 
1964 a 1999. São 35 anos... Parece pouco tempo que o Brasil mergulhou - sob a força e o controle dos tanques, cassetetes e métodos de tortura medieval para conter os virtuais opositores - numa fase de dominação e autoritarismo político.
O preço desse projeto - aparentemente simbólico - é pago ainda hoje pelas novas gerações, refletido num descaso político, uma indiferença cultural e um conformismo generalizado e tão ralo que parece satisfazer boa parte da população diante da conivência com a crescente desigualdade social.
Ora, um povo que se cala diante do descarado aumento dos índices de miserabilidade deve mesmo ter uma história marcada pela dominação mais presente e forte do que alguns relatos oficiais podem expressar... Quem não se lembra ou ao menos não ouviu falar do assassinato do jornalista Wladimir Herzog (1975)? Da morte do operário Santo Dias, dentre muitos outros que foram submetidos à prática da tortura em suas mais variadas formas?
No final do ano passado, por ocasião do aniversário do AI-5 (dezembro/68), o ex-torturador do 12º Regimento de Infantaria do Exército, Marcelo Paixão de Araújo, admitiu publicamente (em revista de circulação nacional) ter torturado cerca de 30 pessoas, entre os anos de 1968 e 71. Mais aterrorizante que a confissão de um torturador, foi talvez a relativa indiferença que parece contagiar boa parte da população. Uma espécie de apatia que, no mínimo, reduz os efeitos dos abusos cometidos em um dos momentos mais medievais da história deste País.
Tão absurdo quanto a ousadia de ex-torturadores é ver, hoje, quando a banalização mercantilista tenta legitimar um constante sequestro da história política deste País, que até mesmo alguns torturados aderiram à política do consenso neoliberal. Da mesma forma, por incrível que pareça, ainda se pode encontrar alguns historiadores da dominação oficializada ratificando a governabilidade possível, através de projetos, da ocupação de cargos em governos neoliberais, de filmes com indicação a prêmio de cinema ou livros de gênero.
É claro que toda essa selvageria para manter o controle político do Estado também encontrou resistência junto aos setores organizados, possibilitando o gradativo surgimento de inúmeras demonstrações de descontentamento e insatisfação popular que culminaram com o que, posteriormente, se denominou de redemocratização.
Pena que essa idéia de (re) democratização, ao mesmo tempo em que possibilitou a expressão política dos movimentos de oposição, por outro lado, também deu espaço para os mesmos agentes da dominação se reciclarem no governo desta República Verde-Amarela. Apenas para exemplificar, o fato de que atual presidente da República tenha em sua equipe de governo ex-articuladores políticos do governo militar, parece ser um mero detalhe nessa reciclagem da histórica dominação que impera neste País.
- SÉRGIO LUIZ GADINI, jornalista, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa ([email protected])


