Infantilização das massas
Demonizou-se a ciência, a arte, a filosofia, pilares do humano enquanto ser crítico, criativo e sensível
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de outubro de 2025
Demonizou-se a ciência, a arte, a filosofia, pilares do humano enquanto ser crítico, criativo e sensível
Luís Miguel Luzio dos Santos 
Vivemos um momento histórico particularmente inquietante: os piores foram alçados à condição de líderes, muitos deles por via democrática, sustentados por massas fascinadas pelo espetáculo da truculência. A modernidade, que prometia a emancipação pela razão, a libertação dos grilhões da obscuridade e a superação das amarras que por séculos nos acorrentaram a superstições e crendices, acabou por se revelar ambígua. Em vez de se afirmar como um projeto de esclarecimento e autonomia, transformou-se em mais uma forma de opressão, submetendo a vida humana às engrenagens da técnica, do consumo e do mercado.
O século XX já havia mostrado os limites da razão quando descolada da ética: duas guerras mundiais, campos de extermínio, bombas atômicas, genocídios e um planeta dividido em blocos armados, prontos para a autodestruição. Ainda assim, poucos poderiam imaginar que o século XXI seria marcado por um fenômeno paradoxal: as próprias massas, em vez de buscarem liberdade e a promoção do bem comum, passaram a clamar por submissão, apoiando autoritarismo, intolerância, irracionalidade e preconceito.
A insanidade passou a ser glorificada. Assistimos atônitos a reivindicações acaloradas em favor do retorno da ditadura militar, quando milhões dizem preferir viver tutelados pelas armas a escolher livremente seus representantes. Demonizou-se a ciência, a arte, a filosofia, pilares do humano enquanto ser crítico, criativo e sensível. Regressaram preconceitos que se acreditava superados: racismo, misoginia, homofobia, xenofobia e aporofobia (aversão aos pobres).
A extrema direita ascendeu em diversas partes do mundo, empoderando indivíduos toscos, violentos e intelectualmente medíocres. Quanto mais arrogante, narcisista ou portador de traços de sociopatia, maior o fascínio exercido sobre as massas enfeitiçadas. A política foi reduzida a encenação — o que Platão chamava de teatrocracia. O diálogo cedeu lugar à gritaria e às teorias conspiratórias absurdas, que alimentam mentes perturbadas e corroem a confiança coletiva.
Vive-se o sintoma de um mundo em crise, no qual a razão pública foi sequestrada pelas paixões mais destrutivas e a democracia transformada em palco de manipulação. Esse cenário não revela apenas falhas institucionais: denuncia a vulnerabilidade das consciências que, incapazes de lidar com a complexidade da realidade, refugiam-se em soluções fáceis proferidas por líderes messiânicos. Em vez de assumir responsabilidades, preferem acreditar em salvadores da pátria com fórmulas mágicas e narrativas simplórias. Assiste-se à infantilização das massas: um processo de regressão psicológica e cultural em que multidões se comportam como crianças irresponsáveis e inseguras, buscando proteção em figuras autoritárias e recusando a maturidade que a cidadania exige.
A história ensina que problemas complexos exigem conhecimento profundo, diálogo, cooperação, solidariedade e compromisso coletivo — tudo o que está em baixa em nosso tempo. A verdadeira emancipação não está em projetar em outros a responsabilidade pela vida comum, mas em assumir que a liberdade exige coragem, pensamento crítico e disposição para conviver com a diferença. A democracia, longe de ser perfeita, continua sendo o espaço mais promissor para o exercício dessa maturidade coletiva. A solução não está em reduzir a democracia, mas em expandi-la além da esfera política, avançando para a econômica e a social.
É preciso resgatar o valor da educação crítica, da ciência submetida à ética e comprometida com o bem comum, da arte como linguagem de sensibilidade e da política como prática de diálogo e responsabilidade. Só assim poderemos superar a tentação da servidão e reabrir os caminhos para uma sociedade verdadeiramente adulta e emancipada.
Luís Miguel Luzio dos Santos, professor de socieconomia da Universidade Estadual de Londrina.
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