Infância perdida
Definitivamente é preciso romper o ciclo de violência contra crianças no Brasil. Estatísticas e histórias relatadas hoje nesta FOLHA mostram que, de fato, a violência ocorrida dentro de casa, gera marcas e traumas difíceis de serem superados. Ainda está presente na cultura brasileira a ideia de que a surra ajuda na educação dos filhos. No entanto, não se trata de discutir aqui a ''eficácia de uma palmada'', mas a agressão desmedida e sem limites contra os filhos.
De difícil comprovação, no Paraná foram registrados 2.822 casos de violência física e psicológica contra crianças de 2003 até março deste ano e outras 2.954 situações de negligência contra crianças e adolescentes. Os dados do Censo Nacional de Crianças/Adolescentes mostram ainda que a violência doméstica gera outras consequências, uma vez que 30,6% dos menores em situação de rua revelaram que deixaram de dormir na casa da família em função da violência doméstica. Outros 32,2% o fizeram por causa de brigas verbais com pais e irmãos.
No entanto, a avaliação é de que os números podem ser bem maiores. Segundo a Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e Negligência na Infância, em média 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia no Brasil. A grande dificuldade é que a maioria dos casos sequer chega ao conhecimento das autoridades, o que acaba por estimular a impunidade e a reincidência por parte dos agressores. Desta forma, seria de fundamental relevância as alterações já propostas ao Senado no Código Penal e no Código de Processo Penal, legislações que passaram por mudanças nos últimos anos, mas ainda arcaicas. Incluir a definição da violência na infância e adolescência e prever o encaminhamento e o tratamento das vítimas e agressores, definir a violência física em diferentes níveis de gravidade, negligência e abuso psicológico são itens que já deveriam constar nas legislações nacionais.
Além disso, tornar as denúncias em processos independentemente da vontade dos responsáveis é outro fator de importante relevância. Essas crianças não podem continuar desamparadas pela lei e pela sociedade.





