INFÂNCIA NA MÍDIA - Crianças precisam ser ouvidas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de julho de 2007
Célia Polesel<br>Reportagem Local 
A Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) é uma organização que faz o monitoramento dos jornais impressos do Brasil há 15 anos. Hoje, a Andi está presente em 13 países da América Latina. O coordenador da Rede Andi América Latina, Ulisses Lacava, falou à FOLHA sobre a pesquisa ''Direitos, Infância e Agenda Pública''. A pesquisa foi feita em 2005 e envolveu dez países, num total de 237 mil notícias de 121 jornais. ''Essa foi a primeira tentativa de se fazer uma análise comparativa da cobertura em todos esses países. A partir daí vai dar para acompanhar as eventuais mudanças.''
Qual o objetivo do trabalho?
A idéia é avaliar a situação da cobertura para utilizar como subsídio para discussão. Tem havido uma receptividade muito grande, os veículos têm aberto as portas para as agências realizarem oficinas de capacitação de jornalistas, palestras sobre direitos humanos e outros temas específicos. Percebe-se que ao mostrar aos profissionais como funciona a cobertura isso serve de estímulo e de referência para que várias ações de melhoria sejam adotadas.
Há dificuldade em dar voz às crianças e adolescentes?
A média revelada pela pesquisa, na América Latina, é que crianças e adolescentes foram fontes em 8% das notícias. No Brasil está em 9%, mas ainda assim é uma das fontes menos presentes, principalmente porque é uma cobertura que fala desse grupo, das suas necessidades, das suas questões. A temática da infância é colocada na mídia pelo viés adulto, é o especialista, o legislador, a grande fonte é algum ator governamental, o executivo (federal, estadual, municipal), a polícia. Temos, em média, 1,19 fontes, por notícia; no Brasil chega a 1,35, é pouco. Não há sequer duas fontes, não há os dois lados da questão. Isso já pressupõe uma oferta um pouco parcial de conteúdo para o leitor.
Qual a conclusão?
A pesquisa identificou como pontos positivos a presença da educação como tema principal, a violência em segundo. Consideramos positivo pela natureza estruturante do tema educação. Percebemos um processo de construção de uma cobertura mais dinâmica, mais contextualizada. Já existem casos também de a mídia ter influenciado em algumas políticas públicas - o caso recente na Colômbia, e um pouco antes na Argentina, dois países que demoraram muito a aprovar suas legislações nacionais, o equivalente ao nosso ECA. Na Colômbia foi aprovado no ano passado e na Argentina em 2005. As Agências da Rede tiveram papel importante em ambos os casos promovendo debate, mobilizando a imprensa para tratar do assunto. Agora, há um longo caminho pela frente. No geral, a cobertura é pouco propositiva, tem um índice de fontes de informação pequeno, utiliza pouco as estatísticas, quase não há menção à legislação e a políticas públicas. Também é baixo o índice de denúncias e busca de soluções, tem um volume alto de termos pejorativos ao se referir a crianças e adolescentes e vários temas importantes estão ausentes da agenda da mídia, como, por exemplo, trabalho e mortalidade infantil.
No Brasil existem diferenças?
Sim. A primeira análise foi em 1996. Em um grupo de 45 jornais foram 10.700 notícias sobre a infância. Passados dez anos, no mesmo grupo de 45 jornais, essa cobertura subiu para mais de 130 mil. Houve um aumento de mais de dez vezes no volume de informação e uma melhora qualitativa muito grande. No início havia uma presença muito marcante do noticiário policial, o tema da infância estava associado à questão da violência. Violência era primeiro lugar em volume de cobertura, caiu para terceiro, foi ultrapassada pela educação e mais recentemente pelos direitos de justiça. O foco, que era um pouco sensacionalista, policialesco, mudou para uma discussão sobre soluções. Houve redução do uso de termos pejorativos e uma série de outros indicadores de qualidade.


