Infância em risco
O aumento das denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes - tema de Reportagem de hoje na FOLHA - reflete o quanto o sistema de atendimento e proteção às vítimas é precário. O relato da apresentadora Xuxa Meneghel ao programa Fantástico contribuiu - e muito - para motivar novas denúncias, o que significa que esse tipo de violência continua arraigada na sociedade, mas está escondida, subnotificada. Romper esse silêncio é uma das principais etapas a serem concluídas até porque, segundo estimativa do Ministério da Saúde, apenas um em cada dez casos é relatado no País.
Orientação de pais, professores e protetores para reconhecer as crianças vítimas de abuso e motivá-los a denunciar os agressores é o primeiro passo. Investir em uma estrutura adequada e em profissionais qualificados é outro ponto. No entanto, a punição dos agressores têm que ser efetiva. Nesses casos de crimes hediondos não pode haver progressão do regime prisional, como tem sido concedido pelo Supremo Tribunal Federal. Outra questão a ser tocada é o tratamento dos agressores durante o cumprimento da pena, para evitar que ele saia e volte a praticar o mesmo crime.
Dados da Delegacia da Mulher de Londrina revelam um aumento de 32% nas denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes, muitos deles praticados por reincidentes. Se mantido o mesmo ritmo de notificações, o ano deve ser fechado com cerca de 130 casos, número nunca antes atingido. É importante coibir esse tipo de crime e oferecer apoio adequado às vítimas, uma das principais falhas apontadas.
No Paraná, por exemplo, apenas dois municípios - Curitiba e Foz do Iguaçu - contam com núcleos de Proteção à Criança e ao Adolescentes Vítimas de Crime (Nucria). O governo já sinalizou a intenção de implantar outras três unidades em Londrina, Paranaguá e Ponta Grossa, mas ainda não tem prazo definido. Além disso, dos 399 municípios, cerca de 350 sequer tem rede de apoio específica, enquanto a maioria das pessoas que atendem essas crianças simplesmente não estão preparadas.
É um cenário que não pode perdurar. O mínimo que se espera é que as vítimas recebam tratamento adequado e humanizado. Não se pode continuar com essa situação. Portanto, é importante que a sociedade cobre investimentos em estruturas e atendimento adequados a fim de minimizar os danos já sofridos pelas vítimas.





