Ensinar não é missão simples. A tarefa de educar crianças e jovens exige responsabilidade e dedicação. O desafio é ainda maior quando os alunos vivem em situação de risco, como as que moram nas ruas, principalmente das grandes cidades do País.
No entanto, transformar vidas por meio da educação, por mais complicada que seja a situação da criança, é possível. Um exemplo de iniciativa bem-sucedida é o projeto Uerê, idealizado e mantido pela carioca Ivonne Bezerra de Mello. O método de ensino tem o objetivo de suprir as carências das crianças de rua, que têm as mais diferentes dificuldades de aprendizado.
A preocupação da educadora com o tema vem da adolescência, de quando ela tinha apenas 13 anos. A ausência da figura paterna, relata, foi um ponto que a aproximou da realidade enfrentada por milhares de crianças brasileiras. ''De certa forma eu me identificava com elas. Mesmo pequena, eu sentia o que essa ausência me causava'', conta.
Foi assim que ela passou a trocar experiências com as crianças de rua, com as quais dividia a leitura de livros. Anos depois, trabalhou como voluntária na Fundação Pestalozzi e aos 17 foi estudar na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde fez doutorado em Filologia Linguística.
Nos anos 70, fez pesquisa sobre aprendizado de crianças em famílias de baixa renda e de imigrantes em cinco países africanos que estavam em guerra. De volta ao Brasil, fez doutorado em Políticas Públicas e Governo e em Direitos Humanos.
Diariamente, ia às ruas para ensinar até ficar nacionalmente conhecida pelo episódio da Chacina da Candelária, quando oito menores de rua foram assassinados por policiais militares no Centro do Rio de Janeiro. Avisada por sobreviventes, Yvonne foi a primeira a chegar ao local. ''Naquela noite decidi ser uma ativista sobre os direitos da criança e do adolescente neste país'', ressalta.
A prática veio por meio da educação. A primeira turma do projeto Uerê surgiu embaixo de um viaduto próximo ao Complexo da Maré, uma das favelas mais periogosas do Rio. ''Fundei a ONG em 1997, mas comecei a aplicar esta pedagogia alternativa em 2000. Tenho 85% de resolução dos problemas cognitivos em sala de aula'', afirma Yvonne, que desde então vem defendendo a metodologia intitulada pedagogia Uerê-Mello.
Qual é o diferencial da Pedagogia Uerê-Mello?
Eu divido a aula em vários momentos. Em todos eles, o conteúdo da matéria é o mesmo, mas ensinado de maneiras diferentes para nunca chegar ao ponto de exaustão da concentração dos alunos. É um modelo de desenvolvimento lógico.
A aula tem três momentos. Nos primeiros 35 minutos, quando a criança chega na sala de aula, trabalho com atividades cerebrais porque o cérebro, durante a primeira hora depois que a criança acorda, não está pronto para o aprendizado. Então, dou atividades orais de matemática e português, trabalhando sempre a velocidade e a irrigação cerebral.
É comprovado que quando você trabalha a oralidade, você irriga o cérebro em cerca de 75% de oxigênio e glicose e, quando você escreve, essa irrigação cai para 40%.
O segundo momento é a interação dos alunos com o conteúdo, com questionamentos, por exemplo. E o terceiro é a escrita. Não aplico questionários gigantes nem dou o quadro inteiro para o aluno copiar. Nas minhas avaliações e no dia a dia quero saber se a criança aprendeu. Por isso a resposta pode ser dada em duas ou dez linhas. É indiferente. O importante é o raciocínio.
Onde está o erro no modelo tradicional de ensino das escolas brasileiras?
Na escola brasileira as crianças ficam sentadas, escrevendo e, por isso, a interação oral é muito pouca. Se alguém quiser falar, precisa levantar a mão. Além disso, uma aula curricular tem 50 minutos. Biologicamente, o cérebro de uma criança até os 13, 14 anos, não tem capacidade de se concentrar mais do que 20 minutos. Para mim, a aula tem que ter vários momentos, mas essa mudança vai depender muito do professor, que terá que ser muito mais criativo. Sem criatividade não existe ensino. O professor é um ator.
Como se pode afirmar que o modelo aplicado tradicionalmente no País não funciona?
Através dos índices. O resultado da Prova Nacional das escolas públicas, que tem o objetivo de avaliar o rendimento dos alunos no ensino fundamental, em 2010, aponta que no Brasil como um todo a nota maior em uma escala de 0 a 10 é de 3,8. Isso é uma consequência da má alfabetização dos nossos alunos e a prova de que o Brasil precisa fazer um grande esforço para melhorar nessa área. Uma criança bem alfabetizada terá o ensino fundamental bem feito e o processo em diante será mais facilitado.
Quais são os resultados obtidos pela pedagogia Uerê-Mello?
Hoje, só no Rio de Janeiro, são atendidas 450 crianças pelo projeto, mas com a pedagogia são quase 100 mil. Tenho 85% de resolução dos problemas cognitivos em sala de aula. Desde 2008, quando o projeto ganhou escala, esta pedagogia tem sido aceita em outras instituições. Hoje, ela foi adotada como política pública em 150 escolas públicas no Rio de Janeiro e, além disso, capacitei diretoras, coordenadoras e mais de 3,5 mil professores. Ano passado, esta pedagogia foi implantada também no Recife e agora há a possibilidade do projeto ir para o Pará.
Como o projeto consegue se manter, estando em uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro?
A gente consegue ensinar a criança independentemente da família e do local onde ela vive. A família é a base, mas quando ela não existe, você não vai deixar essa criança de lado porque ela não tem ninguém. É por isso que para trabalhar nesses lugares você tem que ter dose de amor e compreensão. As pessoas ainda são rotuladas pela cor, pela condição social e situação econômica, mas temos que compreender que muitas delas não têm livre-arbítrio, pois a vida foi tão dura que só as levaram para aquele caminho. Acredito que o projeto tem dado certo todos esses anos porque temos uma escola com uma boa ambiência e o pessoal envolvido tem um olhar de inclusão. Acho que não existe milagre, mas para dar certo temos que ter a compreeensão de que é possível alertá-las em sala de aula, tornando a escola um local prazeroso e de paz.
Qual tem sido o maior desafio do projeto Uerê?
De todas as crianças que passaram por minhas mãos através do projeto, em 10% eu não tenho sucesso. Eu as ''perco'' por diversos fatores, mas o principal são as drogas. Dependendo do nível de drogadição, se implicam outros fatores como problemas de saúde, desintoxicação. Sei que nada é 100%, mas também sei que posso reduzir esse percentual. Esse é o grande desafio.

mockup