Indústria e soberania na globalização
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segunda-feira, 03 de setembro de 2001
Max Schrappe 
Para vencer to dos os desafios e equívocos de seus 501 anos de história oficial, ingressando numa vertente segura de cresci mento sustentado e promovendo um processo consistente de desenvolvimento, o Brasil depende muito, dentre outros fatores, do fortalecimento da indústria, não apenas em função da importância do setor na economia, do número de empregos e riquezas que gera e do ingresso de divisas da exportação. Afinal, o desenvolvimento da indústria que, apesar de todas as dificuldades que enfrenta desde o início de sua expansão na década de 40, ainda é a mais avançada da América Latina torna-se fator preponderante para definir a posição e o peso internacional do País.
Sem dominar, com dose acentuada de soberania, os processos produtivos e as novas tecnologias, o Brasil não estará entre os sujeitos da história. No mundo contemporâneo, dependência da produção é sinônimo de subserviência. Esta consciência, porém, precisa ser mais compartilhada pelo Estado. Afinal, a indústria é o setor mais atingido pelos problemas econômicos internos, o rombo fiscal, a derrama dos impostos e as medidas paliativas e meramente monetaristas de controle da inflação. Sem falar do ''apagão'', que pegou o setor no contrapé da tendência de crescimento do início do ano.
É preciso estar alerta ao fato de que o Brasil tem pela frente a tarefa de promover o reposicionamento estratégico de seu parque industrial, para garantir sua sobrevivência com dignidade no contexto da globalização. O País tem de encarar a realidade de frente e se preparar de forma efetiva para disputar o mercado universal. O setor industrial tem de atingir rapidamente níveis muito mais elevados de competitividade.
Os empresários demonstram consciência sobre essas questões. Não querem protecionismo, reserva de mercado e outros privilégios anacrônicos. Dentro das limitações impostas pelos problemas nacionais e pagando altos juros e prestações de bens de capital indexadas ao dolar eles investem na adequação à realidade da economia mundial. Em outra vertente, a indústria cumpre papel importante para seu desenvolvimento e também para o contexto social, formando recursos humanos aptos à moderna concepção do trabalho e às tecnologias de ponta. Exemplo disto se encontra no âmbito do Senai, que, em seus quase 60 anos de vida, formou milhões de profissionais de alto nível em todo o Brasil.
Todo o esforço da indústria, contudo, esbarra em limites estabelecidos pelo cenário interno. Os países desenvolvidos e as potências emergentes adotaram há muito tempo medidas para desonerar a produção. Outra vantagem competitiva que oferecem aos seus parques industriais é a disponibilidade de financiamentos de longo prazo, com juros baixos. Além disso, já garantiram infra-estrutura eficiente, dando suporte à produção e à distribuição.
Mas o Brasil mantém um sistema tributário antiquado e muito oneroso para quem produz, encargos sociais elevados, juros proibitivos e deficiência de infra-estrutura, o que vai reduzindo, paulatinamente, o grau de competitividade da indústria. Outro problema grave é a falta de linhas de crédito, com juros razoáveis, para investimentos em produção. Sem condições mínimas de apoio ao fortalecimento industrial e sem um planejamento econômico realista e sério, contemplando o binômio ''estabilidade/crescimento'', o Brasil corre grande risco de se submeter a uma inserção passiva na globalização.
O problema, como se pode ver, tem muitas causas políticas em sua raiz. Mais do que nunca, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) assume papel decisivo na defesa e fortalecimento do setor. Sua atuação já tem sido direcionada nesse sentido. Acima de questões regionais pois o fomento da indústria é fator condicionante ao desenvolvimento nacional os empresários do setor, em todo o País, devem fortalecer sua entidade maior, conforme tem preconizado Carlos Eduardo Moreira Ferreira. É necessário que na CNI prevaleça o espírito de unidade da indústria nacional, num processo de globalização dentro das fronteiras do Brasil, com o próprio Moreira Ferreira à frente da entidade.
Não bastasse a competitividade exacerbada da globalização, a partir de 2006 começarão a ser derrubadas as fronteiras existentes nos 42 milhões de quilômetros quadrados do continente americano, segunda maior massa continental do planeta. Vem aí a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), composta por 34 países. São quase 800 milhões de habitantes e PIB de US$ 14,5 trilhões. Neste grande bloco, contudo, somente a economia dos Estados Unidos (PIB de US$ 9,3 trilhões) supera em quase cinco vezes a soma de toda a América Latina. Assim, para não sermos meros coadjuvantes nessa nova América sem fronteiras, é necessário ter alto grau de controle sobre as tecnologias da produção, ou seja, é imprescindível uma indústria muito forte e soberana.
- MAX SCHRAPPE, de São Paulo, é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) e do Conselho Regional do Senai-SP, vice-presidente da Fiesp e da Confederação Latino-Americana da Indústria Gráfica (Conlatingraf)


