Indústria do entretenimento
Indústria do entretenimento
Fernando José Dias da Silva
Alô mamãe, alô papai. Agora eu estou na indústria do entretenimento. Sou repórter político na televisão.
Aqueles moços vestindo bons ternos, parecendo que acabaram de sair do banho, e aquelas moças de jeito simpático imaginam que estão fazendo jornalismo ao cobrir uma campanha eleitoral, mas estão fornecendo diversão para um público que não está dando a mínima para as propostas dos candidatos. Querem é emoção, drama, comédia, que são proporcionadas pela campanha.
Não que essas moças e moços que fazem reportagem política sejam umas bestas quadradas. Na maioria são inteligentes, mas são compelidos a seguir a agenda dos candidatos, que têm por trás especialistas que não deixam seus assessorados se mostrarem por inteiro. Fazem as coisas para mostrar só o que interessa, transformando a campanha numa mistificação bem de acordo com a linguagem da televisão. O que interessa são os programas de jogos, as novelas, os humorísticos, não os noticiários sérios e nem os programas de negócios.
É preciso falar a linguagem que alcance o eleitor comum. E é isso que também não interessa aos jornais, às revistas e os exemplares contendo os programas de governo. É norma nunca tentar dizer alguma coisa a alguém. Informações raramente são agradáveis, devido ao apelo que fazem ao intelecto. Se um publicitário pode encontrar um caminho para atingir as emoções de sua audiência, ele pode mudar o modo de sentir coletivo, logo terá uma profunda influência.
Em termos de campanha nós estamos mais próximos da Inglaterra do que dos Estados Unidos. E a diferença está no tempo. Nos EUA só existem os comerciais de 15, 30 segundos. Na Inglaterra, como aqui, funciona o horário político, onde é mais difícil a manipulação porque não dá para sustentar uma mensagem de alto impacto emocional por mais do que alguns segundos. Vários marqueteiros ingleses estiveram acompanhando as últimas campanhas eleitorais norte-americanas e voltaram chocados com a violência com que o jogo funciona.
Aqui no Brasil essa história toda começou para valer com Fernando Collor. Mas ele exagerou na dose. Depois, ele não sabe interpretar. Aquela coisa de jet-ski, corridas com camisetas trazendo mensagem, as fotos feitas para mostrar o livro que estava lendo, foram um porre. Soaram falsas demais. Vazia demais.
Ao contrário de Fernando Henrique, que é disciplinado para seguir os conselhos de seus marqueteiros, mas que tem discernimento suficiente para interpretar um outro papel que não é o seu. Fernando Henrique ocupa bem o espaço na televisão, sabe usar os cenários, as imagens (quem não se lembra da aula que ele deu para as crianças de uma escola lá nos fundões do País), mas nunca apareceu vestido de super-homem. Depois ele tem o tema: estabilização da moeda com o Plano Real.
Como agora nós vamos ter reeleição aqui vale a pena contar a história da campanha de reeleição de Ronald Reagan comandada por Michael Deaver, considerada uma das mais competentes feitas até agora nos Estados Unidos. Reagan estava bem; então, a primeira coisa decidida por Deaver foi limitar o acesso ao presidente. Limitou a uma entrevista coletiva o contato formal de Reagan com a imprensa durante toda a campanha. E mesmo assim a entrevista não foi especificamente sobre a campanha. As conversas com jornalistas eram esporádicas. No meio de algum evento.
Esse corte no acesso dos jornalistas não impediu que Reagan continuasse a aparecer constantemente na televisão. O presidente estava lá presente. Só não respondia a perguntas incômodas e por isso não cometia erros. Sua figura, simpática para os norte-americanos, aparecia na hora certa e no cenário certo sem o risco de sofrer escorregões. Além disso, Reagan também tinha um tema: a recuperação econômica.
Isso tudo foi bolado em Washington. Em Brasília ainda não se sabe ao certo como será a diretriz básica da campanha da reeleição de Fernando Henrique. Mas um passarinho anda contando para várias figuras bem informadas que as coisas vão se dar mais ou menos assim, como nos Estados Unidos. São vantagens que presidentes têm ao disputar um novo mandato no cargo. Eles são notícia de qualquer jeito. Abrindo ou não a boca.
FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





