INDÚSTRIA DO CIGARRO - Jovens estão na mira
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Os rótulos expressam. As propagandas deixam a mensagem, ao final. Os médicos reiteram. Fumar faz mal à saúde. Mesmo assim, o número de fumantes só faz crescer. Segundo pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, o percentual de fumantes no Brasil está em 19,3%. Diante desse quadro, perguntas não faltam. Com a proximidade do Dia Nacional de Combate ao Fumo, em 29 de agosto, a reportagem da FOLHA conversou com o pneumologista Guilherme Fazolo.
Mesmo diante das campanhas antitabagistas, a Organização Mundial de Saúde admite que a produção de tabaco, em nível mundial, tende a crescer. Por quê?
Apesar de todos os esforços que fazemos para esclarecer a população dos malefícios, as empresas tabagistas têm estratégias de marketing muito bem-sucedidas, criando campanhas de vanguarda. Diante desse marketing agressivo e da estratégia adotada, fica difícil promover essa mudança.
Qual estratégia?
O apelo à juventude é muito grande. O cigarro é sempre associado a uma imagem de liberdade e essa juventude acaba incorporando e sustentando mais o vício, enriquecendo a indústria do tabaco.
Fora as campanhas, em si, por que acredita que esses jovens começam a fumar cada vez mais cedo?
A pessoa acha que o cigarro vai ser uma forma de ela ficar bem na sociedade. Na verdade, ela acaba se tornando uma viciada, pois há a dependência química da nicotina, que é mais difícil de ser rompida que a da cocaína, da maconha, do álcool, por exemplo. Do total de pessoas que experimentam a nicotina, 60% a 70% acabam criando uma dependência.
Recente pesquisa mostrou que, quanto menor a escolaridade, maior a propensão ao tabagismo. Há uma explicação?
Geralmente é assim: quanto mais pobre a pessoa, mais ela fuma. O dinheiro que poderia ser gasto comprando arroz, feijão, ou até para um conforto, acaba sendo desviado para o vício.
Seria esse traço uma situação nacional?
Não somente. O maior lucro das empresas está nos outrora chamados países de Terceiro Mundo, que têm maior crescimento demográfico. Na Dinamarca, Noruega e Suécia, a maioria da população já fuma. A indústria do tabaco não está interessada na pessoa de 50, 60 anos, que já é uma dependente química, e sim no jovem que vai ''substituir'' aquele contingente que morreu em virtude do vício. É a manutenção do lucro.
Como o senhor analisa a criação de ''fumódromos'' e restrições a fumantes, seja em shoppings ou repartições públicas?
Importantíssima, pois há a diminuição do problema para o fumante passivo, que inala a fumaça do cigarro sem filtro, exposto a perigos sem ser fumante.
Os fumantes reclamam que são segregados socialmente...
Eles têm sim o direito de fumar, mas não de prejudicar a saúde do outro. Ao ar livre, não há problema algum, agora, em ambiente fechado, sim. Um trabalho recente mostrou que os motores a diesel, mais novos, poluem menos o ar do que um fumante dentro de um quarto.
Na iminência de 29 de agosto, Dia Nacional de Combate ao Fumo, alguma recomendação?
O ideal é que não se fume. E o mais importante: evitar dar a primeira tragada. A mesma postura que adotamos com cocaína, heroína e outras drogas ilícitas, seria interessante adotarmos em relação ao cigarro. Hoje, existe remédio para tudo ao que se refere ao tabagismo, seja controlar a ansiedade, evitar a fome. Só não existe remédio para estimular ®MDBO¯®MDNM¯a vontade da pessoa parar de fumar.


