Indústria do barulho
José A. Fiori
Depois da revelação do deus-mercado, pródigo em bênçãos aos batizados na fé liberal, a cidade troca a virtude cardeal de melhor qualidade de vida pelo vício do barulho. Também o estrangulado sistema de transportes, os pecaminosos shoppings e casas de shows foram transformados em associações de bêbados explícitos e dublês de delinquentes que excedem decibéis, com arruaças e tiros na madrugada.
Quase impossível, endorfirnar o sistema nervoso alterado. A emergente indústria do barulho floresce na concessão de alvarás, que enriquecem as burras públicas com processos de autuações, interdições, liminares pecuniárias e honorários advocatícios, para, na sequência sísifa, reabrir portas à revelia da lei do silêncio, da harmoniosa e boa convivência urbana.
Referência ecológica, em qualidade de vida, Curitiba peca por camuflar o marketing de cidade barulhenta, e faz jus à explosão de vendas de equipamentes de sons, parafernálias eletrônicas, discos e de grupos supostamentes musicais, plágios da bunda-music e do samba-pagode-pauleira que infernizam, dos shoppings às casas de shows, o sossego noturno.
Tranquilidade, mania de curitibano? Não. Mania curitibana é prezar qualidade de vida, antídoto da vida real barulhenta e insegura, aqui, agora.
Ao gosto musical ensurdecedor, de bregas e chiques movidos a decibéis estratosféricos, a insensibilidade dos órgãos ambientais, de urbanismo e de ordem social, que permitem o funcionamento irregular de danceterias, até o dia amanhecer.
Mania de curitibano não gostar de cidade barulhenta, com seu trânsito caótico e perigoso? Não e não. O Plano Real resgatou o direito ao consumo, mas peca por não contemplar a qualidade de vida, que não se casará com o liberalismo barulhento e totalitário, que bebe cervejas, mas urina garrafas e latinhas na rua, onde alarmes disparam-se, alguém grita morrendo, depois de tiros, ou seriam facadas?
A polícia chega e nada acontece. É a rotina do barulho. Faturam empresários da noite, prepostos e prebostes, membros da vereança, delegados ou policiais coniventes com os infratores.
Proliferam, não sem razão, críticas subjetivas ao trio elétrico, que enseja de problemas de audição a um derrame cerebral. A indústria cultural produz fora da ISO, metralha decibéis agregados a tóxicos à saúde. E as autoridades? Bem. Curitibano sempre reclama.
Consumido pelos contribuintes de IPTUs, e IRs, o lixo musical é comercializado sem fiscalização sanitária, com o pode das secretarias de urbanismo, meio ambiente, delegacias e corpo de bombeiros. O direito de respirar e ouvir é violado. O ar e o bar, serviços de utilidade pública, que deveriam, ser socialistas, monitorados pela sociedade e regulados pelo estado, viraram monopólio privado. A lei do silêncio, (ah! é coisa de curitibano!) não funciona. O código ambiental pune pichadores, deixa o caiçara matar a fome com o macaco caçado e o lobo-guará sacrificado, mas nada reza explicita e contrariamente, aos decibéis que martela os ouvidos.
Não seria crime fazer barulho, porque a indústria precisa dos decibéis para se tornar auto-sustentável, assim como o executivo, o legislativo e o judiciário necessitam contratar oficiais, fiscais e profissionais do direito para retroalimentar o ‘‘laissez faire’’.
A harmonia dos contrários, que remunera sentinelas da moral e paladinos da verdade, não pode reivindicar a paz do cemitério, até mesmo porque esta seria uma etapa pós-escatológica. Mas não dá para questionar produtos que se oferecem sem a marca da qualidade. A explicação sobre o barulho totalitário explorado na convivência, ‘‘ad libitum’’, por franqueadores do entretenimento, deve ser buscada na proposição marxista que todo produto traz em si as marcas do sistema que o produziu.
Nas esquinas de ruas e avenidas centrais, na proliferação dos shoppings, na venda de espaços para estacionar e na indiferença oficial, estão valores agregados de tributação, que remuneram industriais, governos e fiscais. A mais valia tributária, garantida por benesses e complacências oficiais, é o alvo que pretende combater a primeira ONG (Organização Não Governamental) contra o barulho. Os alvarás, prerrogativa de secretarias municipais, deveriam ser concedidos com a anuência, inclusive, do cidadão, que remunera com impostos a máquina prefeitural. Também as liminares, favores judiciais concedidos pelo único poder que não possa pelo crivo eleitoral, não deveriam ser oferecidas sem o aval de um júri popular. Mas o mercantilismo e o deus-mercado ainda falam mais alto. O curitibano reclama. O cidadão não existe.
- JOSÉ A. FIORI é secretário da ONG contra o barulho, em Curitiba

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