Os obstáculos à venda do remédio fracionado - problema levantado em reportagem deste Jornal - encontra a causa na perversidade da indústria farmacêutica, que não produz embalagens igualmente fracionadas, preferindo o tradicional e mais rentável sistema de vender pacotes em quantidade fixa. Assim, mesmo que o paciente não necessite daquele volume de comprimidos ou outra forma de medicamento, tem de pagar o pacote cheio, que resulta jogado fora em parte ou perdendo validade. Sabendo-se o quanto é alto o preço dos remédios, isto se converte numa sangria à economia popular.
Além dessa posição industrial, que dificulta o fracionamento pelas farmácias, a maioria dos médicos não estabelece o número de comprimidos ou doses e prescreve a caixa ou o frasco inteiros. Ele é genérico quanto à indicação da medicação mas talvez não pense no bolso popular, mesmo sabendo que em muitos casos meia dúzia de comprimidos basta e não toda a quantidade da embalagem. O fracionamento dos remédios foi uma boa medida do Governo Lula, dois anos atrás, e todo esse tempo se passou e os segmentos da área ainda não se adaptaram convenientemente, talvez porque a própria vigilância governamental da área não tenha exercido fiscalização rigorosa depois de criada a norma.
Os farmacêuticos argumentam com a preservação da segurança, por isso recomendam que cada comprimido fracionado ou outras doses de medicamentos devem conter todas as informações necessárias, incluindo prazo de validade. Se o Governo é acusado de tantas coisas, some-se esta de não policiar, e assim não adiantará impor uma determinação como esta, porque a indústria farmacêutica a sabota. Deve-se admitir que essas indústrias já se adequaram em alguns itens, mas ainda não é regra geral.
Recorda-se que quando os medicamentos genéricos foram criados, há dez anos, também houve resistência do portentoso negócio dos remédios, e ainda agora muitos deles não existem nessa categoria e só em sua forma original - e não o será certamente pela falta de possibilidade de criar os iguais mais baratos. A milionária indústria do setor, que tira proveito das misérias sociais neste país de muitos doentes, penetra fundo no organismo das pessoas, e não no sentido da ingestão dos remédicos mas da punhalada no paciente, porque os preços são proibitivos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária precisa agir com todo o rigor para que essa lei emanada do próprio Governo seja obedecida. Ou terá sido inútil o presidente Lula tê-la assinado. Se existem essas falhas, o sistema precisa ser aperfeiçoado.

mockup