Em 12 meses, 657 trabalhadores demitidos. Este é o balanço do desemprego no setor automotivo paranaense, divulgado na edição de ontem da Folha. A retração do mercado tem deixado lotados os pátios das montadoras e provocado iniciativas raras, como a que a francesa Renault lançou recentemente, oferecendo descontos para que os seus trabalhadores tenham acesso aos produtos que fabricam.
A iniciativa da empresa, certamente, foi a de estimular uma ínfima fatia do mercado consumidor a que está dentro dos seus domínios a optar pelos produtos do grupo na hora de comprar um carro. É legítimo. Observando o estacionamento em que os funcionários deixavam os seus veículos para trabalhar, a direção percebeu que ali vigorava a máxima ''em casa de ferreiro, espeto de pau''. Poucos trabalhadores pilotavam modelos da marca.
A política instituída pela montadora mostra o que parece invisível para a maioria das empresas que opera no País, nacionais ou estrangeiras, e principalmente para os governos. Não basta fabricar mercadorias, é preciso produzir mercado consumidor o que se faz com salários e renda, além de crédito razoável.
Só de imaginar a enorme demanda a suprir em um país continental como o Brasil, com 170 milhões de habitantes, brilham os olhos de qualquer executivo. Mas poucos lembram do imenso contingente alijado do consumo, uma multidão de cidadãos que viaja na classe econômica do mercado e não consegue, no fim do mês, mais do que pagar as contas de água e luz e se endividar no supermercado. Poucos têm saldo bancário para ir às compras, por mais que queiram.
Com 400 mil desempregados e uma classe assalariada com renda média inferior a R$ 500, o Paraná tem muitos habitantes, mas nem tantos consumidores. A renda mensal da grande maioria mal pagaria uma parcela de um carro novo, desses que saem das linhas de montagem do pólo automotivo.
Já que o governo estadual preocupou-se nos últimos oito anos em providenciar quem produza os carros, seria bom que o sucessor desse um passo adiante e se ocupasse, a partir do ano que vem, dos que devem estar do outro lado do balcão.
Ruth Meira

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