Condições seguras são um direito do cidadão
Não devemos jogar toda a culpa no poder público





O motorista que hoje circula por cidades de médio e grande porte sabe que está sendo constantemente vigiado. Como um Big Brother do trânsito, as câmeras - escondidas ou não - estão sempre a postos para flagrar infrações e punir os maus condutores. Em Londrina, de acordo com a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), há 20 vídeos-vigia distribuídos pela cidade e cinco locais preparados para receber a fiscalização com radar portátil. Nesses pontos, há sinalização de limite de velocidade. As placas indicam ainda que as blitze podem ser feitas a qualquer momento.

As câmeras, porém, não são suficientes para inibir parte dos motoristas, que insistem em desafiar as leis e desrespeitam as regras de trânsito com frequência. E o saldo da irresponsabilidade é trágico: anualmente 1,27 milhão de mortes são provocadas por acidentes de trânsito que deixam entre 20 milhões e 50 milhões de feridos, conforme aponta relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Para o engenheiro José Mário de Andrade, especialista em trânsito, o uso de câmeras e radares é eficiente porque provoca mudança de hábito entre os motoristas. ''A fiscalização eletrônica é uma forma de estimular as pessoas a fazer a coisa certa. É preciso desvincular o conceito de fiscalização do desejo de multar'', aponta.

A fiscalização eletrônica é uma boa alternativa para diminuir o número de acidentes no trânsito?
Já está comprovado que sim. Planejando bem você consegue colocar a fiscalização de forma intensa nos pontos críticos. Quando as pessoas entenderem que em determinados lugares elas não podem mais praticar nenhum ato infracional, começam a aprender a fazer a coisa certa o tempo todo. Por isso, a quantidade de acidentes diminui. Além disso, nos pontos críticos a fiscalização coloca todo o trânsito numa velocidade só. É importante desvincular o conceito de fiscalização do desejo de multar.

A fiscalização é uma forma de arrecadar dinheiro ou a ''indústria da multa'' é mito?
Um equipamento de fiscalização eletrônica não tem capacidade decisória. Diferentemente de uma pessoa, ele não pode decidir se multa ou não. Somente se a pessoa estiver acima da velocidade permitida ou se passar no sinal vermelho o equipamento gera uma imagem. A multa vem se a imagem for classificada como válida por uma autoridade de trânsito.

Uma reclamação recorrente é que o destino da arrecadação das multas não seria transparente.
Cinco por cento do dinheiro arrecadado vai para um fundo do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito). Um outro percentual, que depende de cada município, vai para o Detran (Departamento de Trânsito) para liberar a base de dados dos infratores. O restante deve ser aplicado em melhorias no trânsito.

Isso está escrito na lei. A fiscalização é uma exigência do Código de Trânsito. Logo no primeiro parágrafo diz que o trânsito em condições seguras é um direito do cidadão e uma obrigação das autoridades.

A fiscalização eletrônica é uma forma de organizar o trânsito. Normalmente quando se aplica um sistema de fiscalização eletrônica aparece uma porção de multas porque as pessoas estavam acostumadas a cometer atos infracionais. Quando o equipamento é colocado as pessoas continuam se comportando da forma que estavam acostumadas e aí as multas começam a aparecer.

Para mim, acidente de trânsito não existe, pois acidente é uma coisa que você não pode prever. No caso do trânsito, quase sempre se você tivesse feito a coisa certa o acidente não teria acontecido. O nome mais correto é um evento de trânsito.

Algumas atitudes no trânsito são criminalizadas. Por que então ainda ocorrem tantos desastres nas ruas e estradas do País?
Os crimes de trânsito estão elencados no código. O que a gente precisa é estimular que esses crimes sejam punidos. O Código Brasileiro de Trânsito é um dos melhores do mundo. Basta a gente exercitar tudo o que está escrito.

As campanhas educativas são válidas?
Sim, mas o grande problema que a gente sofre é que centralizamos todas as campanhas na Semana do Trânsito. O trânsito não deve ser discutido em uma semana e sim todos os dias. Não devemos jogar toda a culpa no poder público. As pessoas e as empresas devem fazer a sua parte. Sem dúvida devemos cobrar dos governos, pois é responsabilidade deles. Mas não é só deles, é nossa também.

Qual a sua avaliação sobre a Campanha Pé na Faixa?
Um sucesso. É semelhante ao que foi feito em Brasília com enorme sucesso. Em Brasília até hoje quando você coloca o pé na faixa todo mundo para. Londrina vai dar uma demonstração de estar à frente do tempo. Mas a campanha só vai trazer todos os resultados esperados se houver estímulo e divulgação.

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