Indústria automobilística
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de outubro de 2001
Rubens Bueno 
O fechamento das fábricas da Chrysler no Paraná, ademais dos transtornos que causou e segue causando à economia local, obriga-nos a repensar a questão da indústria automobilística, na maneira como ela foi e está sendo implantada no Brasil. Avulta, desde já, um dado altamente preocupante.
Pouco mais de dois anos depois de estar em funcionamento, a produção anual da Chrysler no Paraná ficou a bem menos dos 20% da previsão inicial. E isto dentro de uma empresa de porte internacional, capaz de reunir a melhor equipe de pesquisa de mercado para se decidir onde instalar sua planta e que níveis de produção deverá atingir. Seja, a empresa não é dada a aventuras, donde se conclui que as distorções enfrentadas são de ordem conjuntural. E é o que queremos examinar.
O Brasil e a Argentina, por decisão global das montadoras, foram os países escolhidos para a produção de automóveis, picapes, caminhões e ônibus para toda a América do Sul. A escolha, em si, é lógica: somos os maiores consumidores. Mas mesmo isto, agora, está preocupando. Definiu-se mesmo um sistema automotivo para todo o Mercosul, a fim de evitar a concorrência predatória, o que pode ainda ocorrer diante do quadro pouco amador que se está delineando.
É que as montadoras instaladas nos dois países têm capacidade para a produção anual de 3,5 milhões de veículos, mas os mercados internos de Brasil e Argentina mais as exportações não absorvem mais que 2,2 milhões veículos. Alguns desses partidários do exportar ou morrer poderiam sair anunciando a necessidade de nossa indústria automobilística buscar, de imediato, novos mercados.
Isto, no entanto, é praticamente impossível. A indústria de carros, em todo o mundo, tem capacidade instalada para a produção anual de 70 milhões de veículos, mas aqueles consumidores, por todo o planeta, que têm condições de comprar um carro novo não ultrapassam os 50 milhões, o que, por anedótico - ou dramático - que seja, pode nos levar a imaginar um mercado interplanetário.
São números impressionantes. No Brasil, diante de incentivos ou, para falar mais objetivamente, diante da guerra fiscal travada entre diversos Estados da Federação para conseguir que ali se instalasse uma fábrica de automóveis, foram instaladas mais 13 novas indústrias da espécie.
A indústria tem seus pátios cheios. O dólar aumentando sem parar e essa indústria sem poder repassar os novos custos para o preço do carro, já que a concorrência adquire aspectos dramáticos. Basta que se abram as páginas de qualquer jornal, Brasil afora, para que se encontrem feirões, sorteios, vantagens de todo tipo. E os juros aí praticados estão abaixo, bem abaixo daquela taxa mínima definida pelo Banco Central, o que se explica pela chegada de empréstimos no exterior, bom para o consumidor brasileiro, mas que aumenta, em muito nossa dívida externa.
As vendas de carro têm a característica de que o grosso de suas vendas se dá no primeiro semestre do ano, caindo, logo a seguir, no segundo semestre. No caso do Brasil, em princípio, para este ano de 2001, a situação está relativamente tranquila, vez que as vendas do início do ano cobrem a queda do final do período, admitindo-se um aumento de vendas de cerca de 10% sobre o ano 2000.
Isto representa a comercialização de cerca de 1,6 milhão veículos. Mas nossa vizinha, a Argentina, a braços com séria crise econômica e financeira, apresenta quadro aterrador, com queda de vendas da ordem de 40%. É uma questão que mais se agrava, ainda, quando se sabe que a produção de veículos e autopeças, no Brasil, tem custos 25 a 30% inferiores aos praticados no mercado argentino, o que pode induzir algumas empresas a deslocar fábricas para o Brasil, o que, convenhamos somente poderá desequilibrar ainda mais o mercado.
O fechamento de fábricas, no Mercosul, está, pois, na ordem do dia. A questão do encerramento das atividades da Chrysler em Campo Largo, no Paraná, pode indicar o início de um refazimento total do planejamento das grandes indústrias, tudo muito lógico porque, no mercado global, a capacidade de produção existente está acima, bem acima da capacidade de consumo de nosso mundo.
O governo brasileiro deve estar atento ao problema. Alguns governadores, alguns prefeitos não querem olhar de frente esta crua realidade e preferem fingir que não existe crise e correr atrás das montadoras, oferecendo-lhes mundos e fundos, na ilusão de que carrearão para seu Estado ou para seu município uma cornucópia de riquezas que, estamos vendo, não mais existe.
- RUBENS BUENO é deputado federal, presidente do PPS-PR e líder da bancada na Câmara dos Deputados
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