INDISCIPLINA - Alunos carentes, professores desorientados
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segunda-feira, 28 de junho de 2010
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Até a década de 1970, não se levantar e saudar a professora ao adentrar a sala de aula era considerado um ato de disciplina. Tomava-se bronca de quem não era da família e os pais ainda agradeciam. Hoje, o foco nos colégios já não está no aluno ou no professor, mas no aprender. Há pelo menos duas décadas, temos visto que novas práticas educativas estão sendo colocadas em prática, nas quais as aulas são espaços para aluno e professor tornarem-se agentes do saber.
Entretanto, devido à falta de segurança e ao ritmo de vida frenético, os pais não oportunizam ao filho, que muitas vezes não tem irmãos, um crescimento em grupo. O único espaço onde ele é confrontado com uma realidade que pressupõe o outro é a escola, que torna-se responsável pela educação do conviver. Por isso, hoje, a indisciplina tem ultrapassado extremos e provocado preocupação. ''A escola deve ter como primazia educar para a convivência, esclarecendo a toda comunidade escolar o que é ser aluno, quem é o professor, o que é escola e como ser feliz e proporcionar felicidade nesse espaço'', destaca o orientador educacional Robson Oliveira, do Colégio Interativa, de Londrina. Nesta entrevista, ele aborda temas como os efeitos da disciplina nas relações na sala de aula e a importância do respeito para o aprendizado.
Como se dá o gerenciamento das relações na sala de aula hoje?
Diante dos alunos carentes de orientações para a convivência, temos professores desorientados: o pedagogo é um técnico em métodos e processos didáticos, sem formação em gerenciamento de conflitos, psicologia das relações ou desenvolvimento da moral da criança. Então, o papel do professor exige novas competências. A professora deve realizar seu planejamento, ser pontual e pesquisadora e seu modo de ser já é uma mensagem: exijo respeito. Desde o ínicio do ano, ela deve estabelecer acordos com o aluno, incluindo-o no processo educativo e nas responsabilidades que exigirá. Uma vez criado o acordo, a professora poderá retomá-lo, avaliá-lo e dar novos rumos à sala. Também cabe a cada professor dar sentido aos conteúdos, significando os mesmos na vida do aluno. Seminários, debates e projetos científicos são metodologias imprescindíveis. Quanto à amizade entre professores e alunos, penso que só damos valor àquilo em que investimos afetividade. Quanto mais afetividade ocorrer na prática educativa, mais respeito teremos.
Qual é o comportamento ideal de alunos e professores para que a aula transcorra de maneira disciplinada?
O comportamento adequado do aluno é definido pelas concepções e objetivos educacionais. Se na escola A o professor é considerado o ''dono do saber'', os alunos devem se comportar como bons ouvintes, reproduzindo em suas produções aquilo que o ''mestre'' ensina. É o que Paulo Freire denominou de educação bancária. Agora, se a escola B declara o objetivo da autonomia, os educadores não devem esperar o comportamento de ouvintes de seus alunos, pelo contrário. Professores devem fortalecer competências e práticas para a participação ativa das crianças, tornando-se mediadores no desenvolvimento da aprendizagem das mesmas. Do mesmo modo, os alunos devem estar em meio a um processo que os conscientizem e os orientem rumo a esse objetivo. Então, nessa escola, o aluno indisciplinado seria aquele que não participasse, que só ficasse esperando pelo professor. E a aula transcorreria de maneira disciplinada se os alunos interagissem entre si e com o professor. E este gerenciasse tais relações, mediando a aprendizagem.
Como é possível fortalecer as noções de respeito para favorecer o aprendizado?
Todos nós somos seres em formação, principalmente a criança. É participando de um processo, no qual existem inúmeras ações educativas, que esse aluno terá sua moral desenvolvida. Acredito que hoje a escola deve ter como primazia educar para a convivência, esclarecendo a toda comunidade escolar o que é ser aluno, quem é o professor, o que é escola e como ser feliz e proporcionar felicidade nesse espaço.
Como controlar uma sala de aula indisciplinada?
Independentemente da matéria que leciona, o professor deve ter a consciência de que o primeiro conteúdo a ser aprendido junto aos alunos é o de participar de um espaço coletivo e compartilhar de seus objetivos, sabendo que isso não se dará de hoje para amanhã. Desde a entrada na sala, o professor deve proclamar que é digno de respeito. Isso por meio de suas atitudes, como pontualidade, organização etc. A experiência em sala possibilita a identificação dos alunos ou das situações que são o foco da indisciplina. Assim, com o apoio da coordenação pedagógica, o professor precisaria atingir isso, atendendo individualmente tais alunos e a família, ouvindo-os, esclarecendo os objetivos escolares e firmando acordos. Leva tempo para vermos os resultados, mas quando surgem, são marcantes.
Compare o modelo tradicional de aula com as oficinas participativas que algumas escolas já adotam.
A aula do chamado modelo tradicional tem o foco no professor e em sua informação, apresentada de modo expositivo. É claro que a escola tradicional proporcionava um certo conforto ao professor, ele era apresentado como o portador do que os alunos deveriam aprender, assim não havia desafios e confrontos. Isso porque não havia uma relação aprendente. Só uma transmissão de informações. Quanto à aprendizagem, com certeza as escolas que propõem ser espaços de ação para a aprendizagem possibilitam um maior crescimento dos alunos. Esses aprenderão a aprender, participando, por exemplo, de projetos de pesquisa, e adquirirão inúmeras competências, extrapolando os conteúdos curriculares.
A figura do professor ainda é fundamental para o aprendizado? Qual a influência da tecnologia no comportamento dos alunos em aula?
Quando compreendemos que o conhecimento ocorre na interação e em função dessa, destacamos cada vez mais o papel do professor na aprendizagem dos alunos. É certo que, em meio aos avanços tecnológicos e ao fácil acesso à informação, somente o professor mediador sobreviverá. Todos precisamos de informação, mas necessitamos saber o que fazer com elas, dar significado, confrontá-las e investigá-las e é nesse processo que destaco o papel do professor, mediando esse processo e surpreendendo os alunos, conduzindo-os para além da mera informação. Nessa sala de aula os computadores podem entrar tranquilamente, pois serão somente mais um ferramenta para a aprendizagem.


