Índios vão ficar fora da ‘pajelança dos brancos’
Eles rejeitam o monumento oficial – uma enorme cruz de aço –, e vão erguer outro. Pode ser um índio de braços abertos. Ou uma estátua com um porrete
Paula Autran
Agência O Globo
Porto Seguro - Os índios não estão dispostos a participar da pajelança de brancos, como eles chamam a comemoração oficial dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Quando, na segunda quinzena de abril, começarem os festejos oficiais em Santa Cruz de Cabrália e Porto Seguro, no Sul da Bahia, cerca de quatro mil representantes indígenas de todas as partes do país estarão reunidos em protesto no Arraial de Coroa Vermelha, em Cabrália - onde Pedro Álvares Cabral desembarcou em 22 de abril de 1500 - para a Conferência dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil. Eles acham que não há motivos para comemorar. A idéia é discutir os próximos 500 anos (leia texto nessa página).
E a conferência já começará cercada de polêmica. O ponto crucial da pendenga que hoje envolve os índios de Cabrália e o Governo é uma enorme cruz de 12 metros de altura feita em aço inoxidável pelo artista plástico Mário Cravo e recém-fincada em Coroa Grande. Revoltados por não terem sido ouvidos antes da instalação da obra, os índios decidiram fazer seu próprio marco da data. Ele será colocado bem ao lado da antiga cruz de madeira que há anos indica o lugar onde o frei Henrique Soares de Coimbra celebrou a primeira missa no Brasil, no dia 26 de abril de 1500. O monumento indígena, o terceiro a ser posto no local, ficará de frente para quem chega do mar e, não por acaso, de costas para a cruz da discórdia.
‘‘A construção da cruz nova mostra o desrespeito que eles têm com a gente. Isto teria que ter sido discutido. Agora também temos um artista que vai nos ajudar a fazer um monumento nosso’’, diz José Carlos, líder dos macuxis. O artista é Dan Baron Cohen, um educador do País de Gales, há dois anos no Brasil. Ele será auxiliado pela também educadora Manoela Souza. Os dois, que vivem há 15 meses na estrada e pretendem ficar seis semanas em Coroa Vemelha, garantem que o monumento aos índios ficará pronto a tempo dos festejos pelos 500 anos. Experiência não falta aos artistas, que trabalham para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e construíram monumento semelhante em Eldorado dos Carajás, no Pará, para marcar o assassinato de 19 trabalhadores rurais pela Polícia Militar do Pará, em 96.
Na semana passada, o processo de construção do monumento dos índios foi iniciado com a projeção de slides sobre a escultura de Carajás. O próximo passo é promover oficinas de histórias para, através de conversas, encenações, imagens e objetos, se chegar ao monumento ideal. ‘‘Nosso monumento será mais democrático, fruto de uma criação coletiva’’, diz o artista Dan.
Em visita ao local, o ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, negou que os índios estivessem contra a nova cruz: ‘‘A princípio, eles discutiram, pois ela é construída com o material da espada dos conquistadores. Mas o que parecia impossível aconteceu: as famílias de Coroa Vermelha ficaram satisfeitas’’.
Mas no local do monumento indígena, há quem mostre insatisfação com a cruz de aço: ‘‘Acho que deveria ser um índio de braços abertos’’, sugeriu um. ‘‘Mas aí vai formar uma cruz também’’, recriminou outro, sugerindo que a estátua viesse acompanhada de uma borduna ou de um porrete. Dan explica que todas as sugestões precisam ser discutidas e mais bem trabalhadas.‘‘Os índios vão encontrar a melhor forma de mostrar o que significou para eles o Descobrimento e que esperam para os próximos 500 anos’’, acredita Dan.

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