Indignação de veranista
Outro dia me perguntava: Por que vou com a família à praia no Paraná? Sair do conforto da casa em Curitiba, só se justificaria se as seguintes respostas fossem verdadeiras: é barato, o trânsito é ótimo, a praia é uma mistura de sol, areia e mar maravilhosos, tem aquele silêncio que permite um reparador descanso noturno, o meio ambiente bem cuidado faz nos sentirmos bem etc.
Infelizmente nada disso é verdadeiro. Tudo lá é mais caro que aqui. Até aí tudo bem, se considerarmos que é área turística, em alta temporada. Em muitos horários o trânsito é caótico. O barulho resultante de uso indiscriminado de alto-falantes em veículos particulares é terrível. O pedágio da rodovia é um assalto. Ainda assim, com um pouco de paciência própria do turista que está a passeio, resignamo-nos.
Contudo, quero me aprofundar no intolerável e inaceitável. Não posso me omitir diante do descalabro que vi e que deve ser atribuído ao desleixo e desmando das administrações municipal e estadual. Primeiramente quero me referir ao lixo. A coleta seletiva não existe. O sistema que lá se montou é mera fachada de marketing político, tanto quanto o é também em Curitiba.
A pequena parcela de lixo reciclável que é coletada, o é graças aos carrinheiros, que em sua triste sina sobrevivem de escarafunchar em latões e puxar carroças. Falta consciência aos cidadãos que pouco separam nas casas. Nos condomínios, se perde grande parte da seleção feita domesticamente. A mistura total é feita pelo caminhão do lixo comum, que ao passar antes do outro de recicláveis recolhe tudo indiscriminadamente. A ordem dos caminhões é invariavelmente invertida, evidenciando total incompetência. Até o ano passado, tudo ia para um lixão a céu aberto até hoje existente, cujas montanhas de lixo acumulado ao longo de anos continuam ali, poluindo com seu chorume o manancial de uma área de proteção ambiental próxima.
O novo aterro sanitário existente no município de Pontal do Sul, que deveria ser um orgulho e a amostra de reversão do problema, tem sua visitação estranhamente proibida. Em suma, em termos de lixo nada funciona naquele balneário.
Já a praia, razão maior de se ir até lá, é um escárnio para com a população flutuante e também local. Filmagens que fiz documentam o que relato. O lançamento de esgoto a céu aberto na Praia Brava central, ao extravasar para os lados, contamina com excrementos - e tudo mais - a areia e a água onde inocentes crianças e desavisados adultos pisam e brincam inadvertidamente. A poucos metros, o rio que deságua no centro da praia lança igualmente seu líquido fétido. Tudo resultante de esgotos clandestinos.
E com os não clandestinos, o que acontece? Simplesmente o mesmo. Tudo que é coletado é canalizado para uma lagoa de decantação, a qual extravasa seu líquido negro e tóxico no Rio Matinhos, que após cruzar a cidade - onde lhe é acrescida mais uma carga poluente - vai desaguar no mar, na praia próxima ao mercado de peixes. Em suma, todo o esgoto de Caiobá e Matinhos é lançado ao mar sem tratamento algum.
Para a próxima temporada, se ainda houver alguma autoridade realmente responsável, ou se soluciona isso ou esse balneário tem de ser interditado por razões sanitárias a bem da saúde pública. Se assim não for, pra nós basta. Lamentavelmente teremos todos de ir para o Nordeste.
- RUBENS A. HERING é membro da direção executiva do Partido Verde no Paraná





