Indiferença
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segunda-feira, 03 de dezembro de 2018
Estamos diante de uma sociedade que parece desabar. Desesperança, violência, medo, intolerância e principalmente indiferença diante do outro. Na falta de um projeto coletivo, a busca pelo sucesso individual, pela exaltação do ego, por se fechar na própria bolha obcecado pelo bem-estar e realização pessoal, tornam-se a razão de todas as coisas. E os outros? Os outros que se virem... Essa é a clássica resposta, seja ela consciente ou inconsciente.
A ética propõe-se a discutir como o homem se deve relacionar com a sociedade. Para os gregos antigos, os seres humanos vivem um conflito constante entre as paixões, os instintos, que são próprios da natureza humana, e a razão, que se desenvolve na vida em sociedade. O papel da ética é guiar os homens, através do bom uso da razão, em direção ao bem. Mas que bem? O absolutismo da razão como guia para o bem viver coletivo demonstra-se insuficiente, precisamos incorporar a sensibilidade e a emotividade para sermos inteiros.
Uma conduta ética é antes de qualquer coisa uma tomada de posição. Dessa forma, a indiferença torna-se o que há de mais antiético. A indiferença caracteriza-se pela apartação do semelhante - que não é percebido como tal - naturalizam-se suas mazelas num determinismo macabro. Pois, desconsiderar a existência do outro é pior que matá-lo, é matá-lo em vida, é uma aniquilação sem óbito. A indiferença é a própria banalização do mal.
Diante do crescimento da pobreza e do preconceito no País, o que a princípio poderia incomodar, passa despercebido para a maioria. Uma criança pedindo no sinal ou 11 milhões de cidadãos morando em favelas, o racismo latente, a perseguição à comunidade LGBT ou a refugiados e migrantes, não chama mais a atenção e muito menos mobiliza compaixão. São apenas números, vira-se o rosto e segue-se adiante sem traumas, ou pior, culpa-se o individuo pelo próprio infortúnio.
O psicanalista Jurandir Freire Costa chama a atenção para a indiferença em relação aos pobres, percebidos como "coisas", um grupo de não-gente, e por isso ignorados, desprezados e tratados como um incômodo que se quer ver bem longe, de preferência apartados por um muro que impeça o contato visual. Mas como nada é isolado, o descaso e o ostracismo produzem reações, pois quem não é reconhecido como cidadão, também deixa de ver o outro como digno de valor. O cálculo utilitarista é simples, quando não se tem nada e nem oportunidade de mudança, o que há a perder? A morte deixa de ser temida, por que o inferno é aqui e vale tudo por uma pequena dose de prazer.
A filósofa Hannah Arendt defendeu que o mal, dependendo do contexto, pode acabar por ser naturalizado, tornar-se mecânico e isento de culpa e, nesse caso, não seria uma categoria ontológica, mas político-histórica, se manifestar onde existe espaço institucional. Estamos diante da banalização da barbárie, alimentando a ideia de que a solução está em exterminar as ameaças, num processo de "higienização" que nos faz lembrar que o holocausto não está longe. Há um desejo em destruir o que não se tem coragem de transformar, prefere-se a aniquilação ao entendimento. Mas não teremos paz enquanto não soubermos desenvolver um projeto fraterno que inclua a todos, o que implica em fazer concessões e abrir mão de privilégios em nome da acolhida e do bem coletivo.
Queiramos ou não, coexistimos, somos interdependentes e só teremos paz verdadeira quando soubermos conviver, religar uma nação dividida há 500 anos. Precisamos aprender a desenvolver valores que achávamos possuir, como a solidariedade, a compreensão, a compaixão e o respeito pela diversidade. Pois os traços que mais nos orgulhavam como povo ou nunca existiram ou estão morrendo por falta de uso.
Luís Miguel Luzio dos Santos, professor da UEL
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