Indícios de superação da crise
Ainda é cedo para comemorar. É precipitado dizer que a crise macroeconômica já foi embora. No entanto, não faltam dados sinalizando um princípio de reversão, ainda que tímido. São indicadores setorizados e referem-se a segmentos cujo desempenho foi prejudicado de forma indireta e não estavam, necessariamente, no epicentro da crise financeira de meados do ano passado.
O primeiro desses segmentos é o varejo. Os supermercados esperam vender mais neste Natal e já preveem, também, que os importados terão fatia maior, favorecidos pelo dólar mais comportado, para não dizer desvalorizado. As agências de notícias têm distribuído manchetes positivas sobre o balanço de setembro, como essa do crescimento de 6%, apurada pelos supermercados. E as jornadas de trabalho começam a apresentar recuperação - outro fator convergente.
No setor industrial a produção sobe no 3º trimestre, mas os investimentos não se recuperam tão rapidamente. A taxa de retorno de investimentos na indústria é um processo lento, diferente da retomada da produção. Pode acontecer no começo do ano que vem, mas não há um diagnóstico que aponte nessa direção. Não por enquanto, pelo menos.
Merece uma análise à parte a boa performance do varejo, único setor cuja expansão mostra números mais elevados. O varejo é dinâmico e pode recuar com a mesma rapidez que cresceu. No entanto, o varejo dá respostas rápidas para medidas como redução do IPI sobre eletrodomésticos, anunciada ontem à tarde. Mas, ascensão ou queda no varejo são comportamento efêmero.
Existe um fator chamado deslocamento de consumo. Por conta dele, é possível que o varejo (de alimentos, confecções, viagens, etc) cresça, apesar da crise dos outros setores. Por quê? Porque seus resultados podem estar atrelados a simples reajustes de salários. O varejo reflete muito mais o comportamento da demanda do que mudanças mais profundas na economia. Assim, se o assalariado suspendeu a reforma do apartamento ou a compra do carro novo - por medida de cautela porque perdeu renda - é provável que compense de outra forma. É possível, então, que resolva comer mais vezes fora de casa ou ficar mais tempo na praia. O fenômeno deslocamento de consumo pode mascarar previsões e estatísticas sobre a demanda agregada de bens. Também ocorre aí uma nova equação: é a troca de investimento (no imóvel ou em carro) pelo gasto sem retorno (em festa com sabor de lazer). Para a teoria econômica isto é muito mais que uma questão semântica.





