Há cinco anos, Felipe da Anunciação, de 42 anos, tinha um emprego fixo e invejado: era operador de sistemas em uma das indústrias do Pólo Petroquímico de Camaçari, na Bahia. ‘‘Eu pensava que tinha um emprego sólido, pois não se falava em crise na fábrica’’, diz. Enganou-se. Foi um dos mais de 15 mil petroquímicos demitidos no pólo baiano nos últimos dez anos, no processo de redução de custos adotado pelas empresas para competir no exterior. Hoje, para viver, guia um táxi.
‘‘No meu setor, trabalhavam 70 pessoas e agora, por causa da automação, são necessárias apenas duas para operar os computadores que monitoram o sistema’’, explica. Anunciação foi obrigado, entre outras coisas, a mudar-se para um bairro afastado das áreas nobres de Salvador (Cajazeira), tirar os dois filhos da escola particular e matriculá-los na rede pública. Ganha R$ 1 mil mensais.
O taxista é um dos exemplos de como os níveis de trabalho e renda do Índice de Condições de Vida (ICV) recuaram na comparação entre 1981/85 e 1995/99, no Relatório de Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro, que começou a ser divulgado na última semana. Sem exceção, nas 12 capitais pesquisadas, todas com mais de 1 milhão de habitantes, aumentou o desemprego e caíram o número de empregados com carteira assinada e o emprego na indústria. A situação refletiu-se no ICV-Renda, que mede distribuição de riqueza, em que cinco capitais recuaram e duas ficaram na mesma.
Especificamente em Salvador, o ICV-Trabalho foi de 0,592 para 0,452. O motivo está nos indicadores que o formam: o desemprego aumentou de 5,5% para 16,3%, o número de empregados com carteira assinada, inclusive os do setor público, caiu de 63,7% para 45% e o emprego na indústria foi de 19,2% para 16,2%.
‘‘Dizem que a cidade melhorou, mas para os fracos, para a população mais baixa, piorou e muito’’, reclama José da Conceição, de 35 anos. Ele trabalhava na prefeitura de Salvador como agente de limpeza quando foi demitido com outros 5 mil servidores em 1997, num programa de redução de gastos instituído pelo prefeito Antonio Imbassahy (PFL). Sem alternativa, virou camelô em Salvador.
O maior recuo na oferta de trabalho, porém, ocorreu em Manaus. Lá, o índice de desemprego aumentou de 3,5% para 17,3%. Na indústria, o recuo foi de 27,2% para 21,6%. Em 1981/85, os pobres representavam 22,3% da população e, em 1995/99, foram a 32,6%. O índice de pobreza saltou de 0,5 para 0,11 e a desigualdade aumentou. Uma situação parecida com a de Belém, onde o ICV-Trabalho passou de 0,530 para 0,427. O desemprego praticamente dobrou entre os dois períodos – de 6% para 11,8%.
A capital do Pará tem hoje cerca de 140 mil desempregados de uma população economicamente ativa de 600 mil trabalhadores, 60% deles atuando no mercado informal. Mesmo São Paulo, que manteve a liderança do ICV-Trabalho nos dois períodos, mostrou ter sofrido mudanças. Seu ICV-Trabalho passou de 0,743 para 0,674. O desemprego foi de 5,8% para 11,6% , o porcentual de empregados com carteira assinada passou de 70,1% para 54,1% e o setor industrial, que empregava 39,4% dos trabalhadores, absorvia apenas 29,7% deles.
Recife manteve, em 1995/99, o posto de desenvolvimento humano alcançado em 1981/1985: 11º lugar. Já Fortaleza, embora mantivesse a última posição no IDH comparando 1981/1985 e 1995/1999, avançou. A renda familiar per capita média subiu R$ 116,00.

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