Indefectível suspensório - Fernando José Dias da Silva
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 1998
Fernando José Dias da Silva 
Que fique claro Sérgio Motta é insubstituível, o PTB não foi comprado por três milhões e Sérgio Naya é um amador. Vamos começar pelo mais fácil. Não dá para acreditar que um partido com todas as tradições de luta como o PTB tenha se vendido por três dinheiros. Até porque é muito barato. Alguns acordos que estão sendo feitos por aí, principalmente em São Paulo, não saem por menos de 50 milhões. Tem um candidato a deputado federal que tem para esbanjar na sua companhia nada mais nada menos do que 20 milhões de reais. Então essa história desse acordo entre Paulo Maluf e o PTB não passa de ficção. Mas não deixa de ser engraçado.
Com relação ao deputado Sérgio Naya o que se pode fazer é simplesmente lamentar. Passou o atestado de incompetência. Foi apanhado. O pior erro na crônica da malandragem. Mas de qualquer forma foi exemplar. A sessão da Câmara que cassou Naya foi pedagógica. Ficou claro que os deputados estavam fazendo tudo aquilo a contragosto. Estavam cumprindo uma obrigação porque a coisa ficou muito óbvia. Não tinha outro jeito. Era preciso mandar Naya para o espaço para preservar a alentada lista dos que estão na fila para serem julgados.
Agora que o serviço está feito é hora de todo mundo respirar. Dá até para dar uma enroladinha com os casos dos outros deputados indecorosos. Foi um vexame tão grande a sessão, que até o desavisado que nunca assistiu a uma plenária ordinária (por sinal ordinaríssima) percebeu a má vontade do pessoal. Aí a oposição sempre voluntariosa cumpriu o papel de cutucar Naya. Aliás, se Martha Suplicy tiver o desempenho, na sua candidatura ao governo de São Paulo, igual ao discurso que fez da tribuna da Câmara, o PT está mal das pernas.
É até interessante fazer um parêntese para dizer que a campanha para governador de São Paulo está impagável (será mesmo?). Mário Covas está aceitando toda e qualquer provocação. Os malufistas se não perceberam, deveriam perceber. Basta perguntar para ele como vai a educação, a segurança ou privatização da Eletropaulo. O bicho perde as estribeiras. Entra em discussões intermináveis e desgastantes. Uma tristeza.
O engraçado é que Paulo Maluf também está à beira de um ataque de nervos. Outro dia num jantar na casa do especulador Naji Naha ele soltou os cachorros só porque um dos convidados perguntou como ia a campanha. O pessoal está perdendo o espírito esportivo.
E o caso de Sérgio Motta? Tem gente especulando que ele pode ser substituído por um triunvirato composto por Tasso Jereissati, Mario Covas e Pimenta da Veiga. Uma grossa bobagem. Serjão sabe coisas de Fernando Henrique que nem o próprio presidente sabe. Todos esses outros políticos têm os seus próprios projetos. Sérgio Motta é dedicado 24 horas por dia a Fernando Henrique. Bate, esfrega, alisa, assopra. Tudo em nome do chefe e do amigo. Amizade profunda que vai muito além das conveniências políticas. É coisa de pele. Há pouco tempo a fotógrafa Sônia Russo fez uma exposição onde ela documenta toda a carreira de homem público de Fernando Henrique. Em 1978, quando ele foi candidato ao Senado pelo MDB, disputando com Franco Montoro, quem é que estava na frente da passeata com um cartaz levantado? Serjão, enorme, de cabelo comprido. Calças jeans e o indefectível suspensório.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


