Incrível, mas verdadeiro!
O Estado tem, para mim, apenas uma cara: a de policial (Jean Dubuffet)
J.Roberto Whitaker Penteado
Já por diversas vezes expressei aqui a minha admiração pela competência dos jornalistas do Economist, uma publicação que frequentemente transcende o setor que seria o da especialização do semanário inglês.
Mas esta semana o meu comentário é sobre um suplemento especial - publicado na edição de 20 de setembro - sobre ‘O Futuro do Estado’, que trata mesmo de economia, porém apresentando informações de grande pertinência.
A matéria abre com uma consideração sobre a contemporânea querela entre os ‘‘pessimistas’’ e os ‘‘otimistas’’ a respeito dos efeitos da vitória do capitalismo liberal sobre o estatismo e da progressiva globalização econômica mundial. Segundo a revista, os otimistas acham que o triunfo do capitalismo é uma coisa boa, que trará mais liberdade para um maior número de pessoas. Os pessimistas, muitos ‘‘viúvos’’ e ‘‘viúvas’’ do socialismo, acham que a expansão imoderada do capitalismo internacional vai aprofundar as desigualdades, sobretudo nos países que não fazem parte do primeiro mundo.
Contudo, como se observa o articulista inglês, ambos os lados padecem de miopia em relação ao que se vem passando, de fato, no mundo, nas últimas décadas. Duas das principais premissas - tanto dos otimistas como dos pessimistas - estão erradas: (1) a de que a participação do Estado nas economias nacionais vem diminuindo; ao contrário, vêm só aumentando. E (2) de que a democracia favorece o capitalismo. Embora seja verdade que o capitalismo favoreça o desenvolvimento das instituições democráticas, a recíproca não é verdadeira: em especial os ideais coletivistas e os sentimentos anti-individualistas que são estimulados pela democracia são puro veneno para o funcionamento do capitalismo...
A primeira das afirmações é comprovada da única maneira possível: através de números. Tomando as estatísticas do FMI e 17 países desenvolvidos como referência, o Economist mostra que em todos eles, sem exceção, a participação do Estado (medida pelos gastos do governo com participação no PIB) cresceu: em 1996, 65% mais do que em 1960; 9% mais do que em 1970 e 2% mais do que em 1990. As cifras atuais vão de acachapantes 65% na Suécia a não menos expressivos 53% na Itália, 54,5% na França e não chega nunca a menos de 1/3 ), menos nos países menos estatizados: 33,3% nos Estados Unidos; 37,6% na Suiça e 36,2% no Japão.
E mais um dado que só uma publicação inglesa poderia ter assim na ponta da língua; depois de 20 anos de cortes ‘‘radicais’’ e ‘‘privatizações em massa’’ o governo Thatcher conseguiu reduzir os gastos do governo de 43% do PIB... para meros 42%!
De acordo com a revista inglesa, os gastos do governo tendem a crescer sempre - nos maus tempos porque eles são maus e nos bons tempos porque os governantes se sentem bem-dispostos. Embora pareça piada, a conclusão é literal: o que confere força política aos governos (isto é, às pessoas que governam) é a capacidade que têm de mobilizar os recursos da sociedade e os políticos não vão abrir mão de seus instrumentos de poder.
Uma previsão assustadora? Pois a coisa fica pior. Lá, como aqui, os eleitores detestam impostos mas adoram que os governos façam investimentos ‘‘sociais’’ e acabam, votando nos políticos que lhes fazem promessas contraditórias. No governo, anunciam com pompa os investimentos e aumentam os impostos aos pouquinhos e disfarçadamente, portanto desviando recursos do setor eficiente da economia - o privado - para o ineficiente - estatal.
É assim, então, que a democracia corrói o capitalismo - que é, como vimos, o sistema que produz maior liberdade - levando o Economist a essa perturbadora conclusão de que a democracia tende a tirar as liberdades dos indivíduos e aumentar o poder do Estado!
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Marketing e Propaganda.

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