Um órgão do governo não pode assumir 'um lado' entre sem-terra e produtores rurais porque o primeiro deles é um delicado problema a resolver, e o segundo não pode ter facções inimigas na esfera governamental porque compõe a cadeia produtiva e é de fundamental importância estratégica para a segurança social e econômica. Mas o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, pela posição de seu presidente Rolf Hackbart, assumiu de público o 'lado' (expressão dele) dos sem-terra e posicionou-se declaradamente contra a gente do campo. Tanto que no dia seguinte o líder do MST, João Stédile, valeu-se da posição do 'colega' e fez-lhe rasgados elogios, enquanto criticava o presidente Lula pela demora no processo da reforma agrária. Os fatos demonstram que o chefe do governo perdeu o controle sobre seus subordinados, porque não se pode conceber a extremada postura do presidente de um órgão que tem, justamente, a função de presidir o processo agrário e não de tumultuá-lo. Se Stédile ataca os produtores rurais, por razões que se desconhece porque de modo algum eles estão impedindo a reforma agrária, não lhes cabendo culpa se o processo não anda este é afinal um direito que lhe cabe, enquanto se vive uma democracia política. Mas não se pode aceitar que o Incra assuma posição antagônica à cadeia produtiva rural quando deveria ser o agente central na busca de caminhos para solução da questão da terra. Seria de esperar do Incra uma posição apenas: a de assumir uma linha de vanguarda na condução da delicada questão, que interessa aos sem-terra, interessa aos produtores rurais grandes, médios e pequenos, porque eles desejam paz para trabalhar, sem o fantasma dos invasores rondando interessa à política do governo e interessa à segurança nacional. Porque a questão agrária se apresenta sob duas interfaces de complexa solução a político-social, representada pelas invasões, e a puramente técnica, que é a implantação de infra-estrutura operacional que viabilize a atividade dos colonos, tanto os hoje sem-terra quanto os estabelecidos. Isto é que deveria preocupar o presidente do Incra, e não assumir a posição de militante em marcha empunhando a bandeira do MST. Cabe-lhe, sim, erguer a bandeira do interesse nacional, que é mais abrangente do que apenas 'um dos lados' que ele assume e, pior, posicionando-se contra outro segmento de cidadãos brasileiros, que são os homens que labutam no campo. O episódio do confronto de Minas Gerais, lamentável por todas as formas, é um caso isolado, e ademais reação e não ação, consequência e não causa uma resultante da lei da impunidade que vigora e que tanto tem beneficiado a política das invasões. O afastamento do presidente do Incra seria uma demonstração de autoridade do presidente da República, e em nada prejudicaria a fomulação do projeto agrário, que, é bem verdade, caminha a passo lento. Porque o MST já se basta por si mesmo, sem necessidade de mais um líder de sem-terra, no caso o presidente do Incra.

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