Inconfidência das urnas
Na sua competente política externa, o presidente Fernando Henrique Cardoso, nas sessões da ONU e demais fóruns de discussão internacional, comunica-se fluentemente com os países do Primeiro Mundo em duas frequências básicas: em uma delas, exercita o marketing do controle inflacionário e recebe elogios e comendas por sua visão histórica e condição de estadista que conquistou a estabilidade da moeda brasileira; na outra frequência, FHC assume postura de defesa do Terceiro Mundo, denuncia as disparidades regionais do planeta e reivindica posição mais humanitária das nações industrializadas em seu relacionamento econômico com os países emergentes e subdesenvolvidos.
Não há dúvida quanto à importância de o chefe da Nação brasileira assumir posições de vanguarda no cenário internacional, lamentando a pobreza de seu País e a miséria da África. É justo cobrar do mundo desenvolvido providências mais concretas para que a globalização não internacionalize privilégios e imensos bolsões de miséria. É altamente significativo que o presidente tenha canais de comunicação tão fluentes com o exterior e se destaque como liderança latino-americana. No entanto, é fundamental, por outro lado, que dê atenção aos clamores do Brasil real, aquele que produz, trabalha e cumpre, a duras penas, todas as tarefas inerentes à transformação da produção, do trabalho e da economia neste final de milênio.
Nesse particular, as urnas de outubro deram um recado muito claro: a sociedade não suporta mais o anacronismo da constituição e as promessas vãs das reformas modernizadoras, avanço do desemprego e dos problemas que atingem trabalhadores, empresários sem-emprego, sem-empresa, as vítimas da violência, das invasões indevidas de propriedades particulares, das greves (que começam a voltar ao cenário nacional, incluindo a paralisação de policiais), dos juros mais altos do mundo, dos impostos e encargos sociais onerosos, da falta de crédito para investimentos...
Para o presidente considerando a inércia do governo quanto à adoção de medidas, há tempos reclamadas, para a solução de todos esses problemas a mensagem das urnas parece ter soado quase como uma inconfidência, a revelação de um segredo de Estado. É como se ele fosse o último a saber que a Nação está insatisfeita e quer ações mais contundentes na direção do crescimento econômico, do desenvolvimento e da atenuação do grave quadro social.
Apesar dos acenos de crescimento do PIB em 2000, permanece a amarga sensação de que o Brasil está muito omisso, pelo menos no plano interno, na solução de seus próprios problemas. A política econômica parece ser mera gestão monetária das contas nacionais, não se levando em conta toda a agenda produtiva do mundo contemporâneo e a necessidade de garantir a inserção competitiva do País no cenário da globalização.
O que as urnas confidenciaram ao presidente é que os problemas brasileiros são muito mais amplos do que o espectro simplista do fluxo de caixa do Estado e dos índices inflacionários. O desafio do crescimento e do desenvolvimento permanece e tem mesmo de ser atacado em sua raiz, ou seja, viabilizando-se custos menores para a produção, deixando-se de taxar investimentos e exportações (uma exclusividade inexplicável da política fiscal brasileira), criando-se linhas de crédito de longo prazo, com juros internacionais, para investimentos em tecnologia, aumento da produção e da produtividade...
Ou seja, tudo o que a maioria das nações já fez ou está fazendo para apoiar a produção e o mercado. Todo mundo já sabia, e dizia, e repetia! O presidente, porém, parecia não ouvir. Restou-lhe a inexorável inconfidência das urnas com toda a ambiguidade e amplitude semântica que o verbete contém.
- MAX SCHRAPPE é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica e do Conselho Regional do Senai-SP e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Confederação Latino-Americana da Indústria Gráfica





