Incômoda posição de engolir Severino
Uma Câmara Federal que se deseja honrada não pode ter em sua presidência um político sob suspeita de corrupção. Esta é a situação do deputado Severino Cavalcanti, presidente da Casa e que é agora acusado de que, quando 1º secretário da Mesa Diretora, haver extorquido o proprietário do restaurante do 10º andar da Câmara, para possibilitar-lhe a continuidade da concessão. Não era pouca a propina mas, pela denúncia, um 'mensalinho' de R$ 10 mil, durante 9 meses de março a novembro de 2003. Tal delito é tipificado como concussão, que significa a extorsão praticada por servidor público. Logo que foi guindado ao comando da Câmara dos Deputados este político veio sofrendo pesada carga da opinião pública, e não porque pernambucano e nem porque conterrâneo do presidente Lula, mas porque era Severino. De tradição política nordestina, escola de hábeis raposas do gênero ACM, José Sarney, João Alves, Fernando Collor, Geraldo Bulhões. Ele, Severino, líder do denominado baixo clero, muito conhecido por sua linha fisiológica e defensor de aumentos salariais para a comunidade parlamentar, suposta razão para que seus pares o catapultassem ao cargo de presidente. Foi ele quem, por estes dias, teve a desfaçatez de pedir 'pena branda' para os denunciados do 'mensalão' do PT. Agora explode o 'pequeno' caso da extorsão ao dono do restaurante, denunciada por declaração desse empresário à revista 'Veja' e depois negada por ele, por razões que se desconhece. A presença no alto cargo do Parlamento de um parlamentar que toma uma tal atitude de defesa de colegas, sobrepondo-se à decisão ainda não conhecida das CPI, e seu envolvimento com a denúncia de cobrar a propina do restaurante, desmoralizam a imagem da Câmara dos Deputados. São casos que, por si mesmos, deveriam resultar na destituição de Severino da presidência da Casa e da própria função de deputado, já que ele próprio não tem a suficiente formação política para pedir afastamento. São tristes momentos os ora vividos no âmbito parlamentar, no núcleo presidencial e nos arraiais do PT, face a tantas denúncias de corrupção. A burocracia regimental ainda arrastará por pelo menos três meses essa novela escandalosa, que a cada dia apresenta capítulos inusitados, como este do 'mensalinho' de Severino. Enquanto isto, nada mais acontece de relevante, para o interesse nacional, debaixo das cúpulas da Câmara Federal, e a discussão das grandes reformas vai sendo adiada. Com o presidente da República também atado pelo imobilismo, as engrenagens do comando da República rodam frouxas. Na esfera governamental, tudo se identifica como mais um quatriênio perdido.





