Incógnitas pedras de gelo
Maria Josefa Rafart de SerasIncógnitas são coisas que não sabemos e que procuramos saber. Embora não conste dos dicionários ou enciclopédias, a experiência prática permite a divisão delas em duas grandes categorias: A) As incógnitas cuja resposta ignoramos mas vamos conhecer um dia, e B) As incógnitas cuja resposta ignoramos, e sabemos que não conheceremos jamais.
A primeira categoria, como depende só de um tempo para ser desvendada, normalmente é deixada para ser resolvida por especialistas. Se existe, por exemplo, água em Plutão ou em Vênus é uma coisa que hoje não se sabe, mas um dia os especialistas descobrirão e todos saberão. Por isso ninguém fora do circuito científico se preocupa discutindo muito a respeito.
A segunda categoria de incógnitas, aquela das sem-resposta eternamente, é a preferida das pessoas, povoa o imaginário popular e rende horas de conversa e toneladas de páginas de jornal. Se algumas pessoas são verdadeiramente abduzidas por discos voadores, ou se existem realmente as loiras fantasmas que assustam taxistas à noite, isso é coisa que todos discutem, e cuja resposta nunca se saberá. O sabor de não saber nunca a resposta é que provavelmente rende essas incógnitas interessantes.
Duas grandes incógnitas permeiam o pensamento dos europeus neste ápice de inverno: a primeira é se as pressões internacionais poderão enfraquecer o assustador movimento ultranacionalista na Áustria (que está com um pé quase no poder e com a cabeça imersa em ideologia neonazista), e a outra é sobre a origem dos blocos de gelo que caem imprevistamente na Espanha e na Itália.
A Comunidade Econômica Européia está em alvoroço, poucas vezes se viu uma concordância tão grande em lançar uma moção como essa contra a Áustria. Logo após o aniversário da libertação dos prisioneiros do açougue humano de Aushwitz, as lembranças dos horrores perpetrados pelos nazistas estão demasiadamente à flor da pele para permitir sequer traços de uma repetição. Mas é uma incógnita cuja resposta se saberá nos próximos dias: ou os teimosos austríacos apóiam esse partido no poder, ou cedem às pressões internacionais. É uma incógnita que durará pouco; sua resposta está por um fio.
A outra incógnita, a da origem dos grandes blocos de gelo que caem aqui e ali, tem o exato perfil da coisa que não se sabe e não se saberá jamais, e faz a delícia das conversas nos bares e da imprensa.
Em janeiro, episódios esparsos ocorridos na Espanha e Itália davam conta de que caíam no solo, provindos do espaço, alguns grandes blocos de gelo, alcançando 2 ou 3 quilos, e até um de 7 quilos na Espanha. Caíram em lugares insuspeitos, como o pátio de uma escola maternal em Pádua, em 22 de janeiro, ou a cabeça de um operário. A cada bloco, uma reportagem.
As hipóteses científicas iniciais foram: os blocos seriam resultado de um fenômeno meteorológico semelhante ao granizo; ou os pedaços de gelo seriam fragmentos de corpos celestes como cometas e asteróides, aí incluída a hipótese de serem os restos de um asteróide que explodiu na atmosfera terrestre em janeiro; ou então, seriam pedaços de gelo caídos dos trens de aterrissagens de aviões; ou, na mais desagradável das hipóteses, seriam fruto das descargas de aviões (a idéia de que chova urina de passageiros de aviões sobre a cabeça de quem está aqui embaixo é, no mínimo, inquietante).
Para cada hipótese, espaço reservado na imprensa para a opinião de dezenas de cientistas, especialistas em aviação e de passantes nas ruas. Até que os resultados das análises de alguns blocos fossem divulgados: alguns deles eram formados por neve de montanhas; em outros casos, restos de alimentos contidos na massa gelada inequivocamente evocavam a geladeira onde foram fabricados.
Em suma, na maioria dos casos, tratava-se de uma orsonwellesliana brincadeira. Fraude mesmo. Gelo fabricado na geladeira de casa, colocado em um saco plástico de supermercado para dar um formato mais, por assim dizer, extraterrestre. Jogado desde o alto de um edifício no meio da rua.
Todavia, para uma pequena parte dos blocos isentada da hipótese de fraude, permanece o mistério que faz as delícias de conversas com amigos e permanece tema de talk shows que varam as noites: de onde provêm? Qual a sua origem? É a incógnita-cuja-resposta-sabemos-que-nunca-saberemos.
- MARIA JOSEFA RAFART DE SERAS é escritora paranaense radicada em Vicenza (Itália)

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