Desde o início desta década, quando foi intensificado o processo de abertura do mercado às importações, é muito frequente o debate da questão, em entrevistas e artigos da mídia. A abertura tem sido analisada sob todos os ângulos, em especial nos aspectos relativos à velocidade da queda de barreiras tarifárias e não-tarifárias, à desnacionalização do parque industrial e ao fato de os responsáveis pela liberação alfandegária terem adotado as medidas sem ouvir devidamente os empresários, principalmente os gestores de pequenas, médias e microempresas. Mais recentemente, também se fizeram presentes nos meios de divulgação dos temas relacionados aos juros altos, política cambial e esforço exportador, com nuances parecidas quanto ao teor das opiniões.
Simultaneamente ao exacerbado debate sobre a inserção brasileira na economia global, o mundo tem assistido, nos últimos oito anos, à crescente presença da Internet junto aos segmentos produtivos, modificando-lhes o perfil de atuação e de logística (afinal, vender CDs, softwares, apresentar catálogos e dados corporativos via www não são mais do que formas alternativas e baratas de realizar a distribuição e delivery). Em resumo, a Internet e outras tecnologias, como a videoconferência e a teleconferência, são fatores com impactos já sensíveis sobre o processo econômico atual. Há, inclusive, estudos revelando que países com a menor taxa de utilização da Internet são também os que enfrentam problemas de perda de competitividade, em especial se comparados com os Estados Unidos.
O Brasil, por sua vez, manifesta crescente receptividade aos meios eletrônicos de comércio, o chamado e-commerce. Esse processo abrange o banco e o shopping virtual, a educação à distância e outros projetos relevantes, muitos dos quais focos de estratégia de empresas líderes de opinião, que como fornecedoras, quer como usuárias.
É nesse cenário de telecomunicações avançadas e mídias capazes de transmitir informação em tempo real que, ironicamente, o empresariado brasileiro reclama não ser ouvido pelos gestores da política econômica. Há uma certa incoerência de cenários nesse processo. A sólida atuação empresarial conta hoje com ferramentas muito eficientes da virtualidade, mas continua utilizando canais tradicionais para fazer chegar aos estrategistas governamentais as suas opiniões, reclamos e contribuições. No lugar da agilidade da tecnologia da informação, a reunião tradicional, o deslocamento oneroso em tempo e dinheiro, o relatório a posteriori, a incompatibilidade de velocidades entre o necessário e o efetivamente realizado...
Não seria o caso de se aproveitar toda a infra-estrutura já montada, ou potencialmente disponível, na criação de associações virtuais, fóruns eletrônicos e treinamento compartilhado? No início, haveria certa dificuldade gerencial, mas logo após o processo implicaria um enorme crescimento da agilidade de atuação do empresariado, da sociedade e do governo, aumentando a competitividade do País e minimizando a protelação decisória, ainda tão presente em nossos meios. Este avanço também minimizaria a visão muito comum de que o lobby é negativo, antiético e privativo dos detentores de muitos recursos.
Não se trata de sugerir uma opção cega por uma espécie de democracia direta via eletrônica, aplicada ao meio empresaria. Tal conceito implica uma série de riscos, como as decisões de dimensões nacionais votadas em causa própria (por exemplo: quem optaria pelo aumento de impostos em uma votação direta?) e a tendência ao plebiscito perene e as decisões sem conhecimento profundo (por exemplo: deve-se ou não alocar recursos para pesquisa pura em um país como o nosso?). O que coloca para reflexão é que pode ser fundamental agilizar a troca de idéias, informações e conhecimento, para que as empresas brasileiras possam defender suas opiniões e garantir sua competitividade.
- THOMAS ROSE é engenheiro e assessor do Programa de Educação à Distância da Fundação Carlos Alberto Vanzolini em São Paulo

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