É verdade que amanhece mais tarde, por causa do horário de verão. Mas no resto continua tudo igual. O Gugu ganhou, no Ibope, do Faustão, quando aparecia alguma referência à eleição. O pacote veio mesmo. E se estabeleceu a velha discussão bizantina sobre quem ganhou a eleição.
A oposição diz que foi ela quem ganhou nos Estados. O governo diz que não, que tudo continua como estava. E os dois têm razão. Tudo depende do referencial adotado. Mas o que é certo: não tem importância nenhuma. Não interessa se quem ganhou foi a oposição ou se foi o governo.
O fundamental é saber como vão proceder as forças políticas daqui para frente. O eleitor, que é mais esperto, já percebeu que é preciso mudanças. Essa foi a lição das urnas. Por isso elegeu Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, Mário Covas em São Paulo. E mandou de volta para o Senado Íris Rezende, de Goiás. Mas os políticos demoram para entender o sinal, ou fingem que não entendem.
A situação e a oposição, sejam elas quais forem, têm de tomar para si a responsabilidade de administrar a crise que está aí, mais do que anunciada. Esse seria um sinal de maturidade, cujo exemplo não é dado pela equipe econômica do governo que insiste em separar política e economia. Os tecnocratas imaginam que a função dos políticos é apenas avalizar as suas últimas invenções. Têm que votar a favor e pronto. E todo mundo sabe que as coisas não são assim. É preciso discussão para aparar as arestas.
Talvez aí esteja um sinal positivo que surge depois das eleições. Os políticos não estão a fim de bancar vaquinhas de presépio. Pelo menos dizem que não estão dispostos a só assinar embaixo daquilo que já foi previamente estabelecido pelos bruxos da economia.
Agora, é preciso fazer isso com responsabilidade. Senão as probabilidades das coisas azedarem mais ainda são enormes. Na verdade, essa é uma situação difícil. O Congresso está velho, depois das eleições. O novo Congresso só começa a funcionar em fevereiro. O pessoal que não foi reeleito evidentemente não estará motivado para tentar resolver as questões. Só que a crise não espera. O pacotaço da primavera chegou como a sombra de uma nuvem anunciando a tempestade do desemprego e o breque no desenvolvimento.
Os políticos estão atentos? É claro que alguns estão e por isso têm dificuldade de pegar no sono. Mas a maioria ainda está deslumbrada com a eleição, sem prestar muita atenção na fumaça que está saindo da janela do andar de baixo. O incêndio é democrático, deixa chamuscado tanto o andar de baixo como o andar de cima.
Tem gente que diz que o Brasil já quebrou. E isso foi em maio. São os fracassomaníacos, mas com argumentos. Esse pessoal, de um pessimismo atroz, diz que a coisa aconteceu antes das Bolsas começarem a cair. O mercado futuro de juros, o mercado futuro de dólares. Esses mercados indicam o grau de desconfiança no País.
Segundo os fracassomaníacos, no final de maio o governo cedeu ao mercado e adiou juros pós-fixados, porque fazia três semanas que não conseguia vender títulos para rolar a dívida. O pessoal não comparava porque no mercado internacional tem gente bem informadinha.
Tomara que tudo isso seja fruto das disfunções hepáticas dos que só vêem as coisas negras. Porque se for de outra forma, só nos resta invocar Nossa Senhora Aparecida, que é santa brasileira. E agora também Frei Galvão.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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