Chega ao final o século em que surgiu a chamada sociedade pós-industrial. Uma era de tabalho, lazer, globalização, da busca da felicidade, valorização da qualidade de vida, avanço da tecnologia, da comunicação instantânea, da clonagem, da Internet. Para o Brasil, a exemplo do que ocorre em numerosas nações em desenvolvimento, este período também apresenta o contraste da exclusão social, do analfabetismo, da fome e da miséria.
Esse paradoxo brasileiro representa, para toda a sociedade e, particularmente, para os que militam na educação, um gigantesto desafio. Como conviver com a modernidade, coexistindo com o retorno de doenças já extintas, o desemprego em massa, a dívida social e as escolas que têm computadores, mas carecem de bibliotecas, vagas para todos e professores preparados e motivados por salários dignos?
É preciso debelar a fome, a doença, o analfabetismo e a miséria, resgatando as etapas queimadas no modelo de desenvolvimento adotado durante o século e, ao mesmo tempo, familiarizar o País com o novo. A tecnologia, nesse contexto, não deve ser obstáculo, mas sim uma poderosa aliada na redenção da sociedade brasileira.
Para vencer esse imenso desafio, não se pode desconsiderar aquele que se constitui no repositório do conhecimento, da experiência e do pensamento humano: o livro. Não há nada de novo ou desconhecido que tenha sido objeto de cogitação humana que não tenha sido registrado em livros. Entendido como referência básica de cultura, saber e sonho, o livro deveria estar muito mais presente na vida da população brasileira e, sobretudo, nas escolas, como força propulsora do conhecimento e do ideal democrático do saber.
As bibliotecas escolares, que, em muitos casos, não são mais do que depósitos de poucos e surrados livros, têm um papel importantíssimo como canal entre o antigo e o novo, o conhecido e o desconhecido, o arcaico e o moderno. A educação para um mundo em constante mutação não pode perder de vista os valores permanentes que se deve buscar na escola, no ensino, nos livros e mestres.
Assiste-se, hoje, à excessiva valorização do saber utilitário, do predomínio daquele conhecimento destinado a operacionalizar alguma forma de produção. A educação integral, porém, deve preocupar-se com o novo ser humano em sua inteira dimensão e prepará-lo para canalizar sua inteligência e sua energia não apenas para se transformar em mão-de-obra produtora de bens e serviços, mas em cidadão participante e que busca sua realização como indivíduo.
No entanto, parcela expressiva da população brasileira, especialmente no universo dos adolescentes e jovens, não tem exercitado sequer o direito ao ensino profissionalizante, que lhes daria uma chance mínima de compartilhar das conquistas que a tecnologia, a informação e as transformações do mundo propiciam à qualidade de vida.
A gravidade do problema é atestada pelo estudo, recentemente divulgado, de que os brasileiros com menos de 24 anos perderam 861 mil postos de trabalho, de 1989 a 1996. A pesquisa, feita pelo professor Márcio Pochmann, da Universidade de Campinas, demonstra, também, que 1,6 milhão de empregos para os jovens anteriormente ligados ao trabalho formal transferiram-se para os chamados ‘‘bicos’’.
Assim, a juventude brasileira está perdendo os requisitos inerentes ao conceito de empregabilidade, exigidos do trabalhador nesta era da globalização. Este segmento de brasileiros é credor da Nação. A triste inadimplência social do País, que começa na miséria, passando pela cultura e o ensino, culmina com o flagelo da exclusão, ferindo a democracia em um de seus princípios mais importantes: a igualdade de oportunidades.
- WANDER SOARES é economista e professor em São Paulo

mockup