As narrativas históricas dos livros escolares são sempre feitas a partir de um ponto de vista oficial e dos vencedores, por isso não raro pontificam os heróis que, na verdade, não o foram tanto. Assim tem sido ao longo dos anos e ninguém ousa contestar, e o que resulta é uma versão nem sempre fiel. Os pedagogos adotam esses livros, e os historiadores extra-escolas vão contando a mesma história de forma diferente e enriquecida, mas o Ministério da Educação ignora essas publicações. Porque é assim e sempre foi assim, no âmbito do ensino primário. Os alunos já se interessam pouco por história, preferindo as coisas contemporâneas, e se ela ainda for mal contada ou com insuficiência de informações, essa disciplina passa a ter baixo proveito.
Desde a história da ocupação do Brasil pelos portugueses, passando pelas muitas invasões e pelas partilhas do país, passando pela Inconfidência, pelas lutas da Independência e pelo período da escravidão, os livros escolares nunca contaram o que se passava na Europa no tempo das conquistas além-mar e qual era a realidade política e econômica das nações envolvidas e porque portugueses, espanhóis, holandeses, franceses, ingleses se aventuravam nessas caríssimas incursões mar adentro. Uma façanha que corresponderia hoje às viagens ao Cosmo, e com muito mais riscos e menos certeza, pela precariedade das embarcações e dos instrumentos de navegação. Ocorria o tráfico de escravos a partir da África negra, porque as leis universais da época não condenavam essa perversidade contra os negros. Os livros nem sequer explicam que as leis libertadoras que foram surgindo e a própria abolição da escravatura não foram obra da Princesa Isabel, e sim a imposição de um momento histórico, quando a classe patronal já não podia manter os escravos. A escravidão veio se exaurindo por si mesma.
Estes comentários vêm a propósito de denúncia de um professor e ativista negro - Edmundo Silva Novais - publicada ontem neste Jornal. Pai de aluno em escola de Londrina, ele condena a forma e o conteúdo do livro didático ''Conversando Sobre História'', especificamente no que trata da escravidão no Brasil. ''Para trabalhar nos canaviais, vieram os negros'', está escrito, mas eles não vieram e sim foram trazidos, depois de literalmente pegos a laço em suas casas, para satisfazer e um rendoso negócio dos mercadores, que não apenas traziam escravos para terras brasileiras mas também os levavam para a Europa.
Novais aponta para 14 ilustrações, das 24 existentes, mostrando negros em situações constrangedoras e humilhantes. Se a história já é estarrecedora, repisar com essas ilustrações fortes é continuar o massacre. Os anciões (e isto não significa sábios) que compõem o corpo de pedagogos do Ministério da Educação aprovam tudo, sem atentar para essas coisas. Esse ativista está solicitando ao Ministério o recolhimento desse livro. Quanto aos professores, estes seguem à risca o que os superiores determinam e esboçam poucas reações. Foi preciso agora um cidadão do povo levantar-se para agitar a questão. Se todos os pais de alunos reagissem ante todas as coisas erradas do ensino, sobretudo para as crianças e adolescentes, os padrões melhorariam e haveria uma mais bem formada legião de brasileiros.

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